terça-feira, 17 de novembro de 2020

último passo

Desde o amanhecer do dia ela vem pensando se terá forças para continuar
Tem que terminar um artigo para ter um titulo
Para poder estar apta a prestar concursos
Ter a vida dentro do curso das ilusões
Vem trabalhando há muito essa dor da morte ou dor da vida?
Dor que deseja o silêncio de existir?
Não. A existência é maior. 
Ela quer ir embora só de uma história.
História que poderia ser lindíssima e mágica
ser ela estonteante e dançarina
risonha, criativa, iluminada, iluminante.
Mas não sente mais os sabores, não tem mais forças
e como não há forças, como haverá esperança?
A tinta de seus dedos estão pintados em folhas
que ela nunca escreverá, estão nas vidas que ela amou
No amor que nunca viveu, na saudade que sempre ficou
Na vontade sonho de todas as coisas que quis e não realizou
No desabrochar da terceira rosa
Quem tem vida e força que viva e ame!
Faça tudo no total
E sinta
Sendo na mais profunda sinceridade
observando as realidades
ouvindo bem as diferenças
cultivando o respeito e a gentileza como se fossem flores
como se fossem sonhos de realidades melhores
compreensões diversas e perspectivas nuançadas de esguelhas
Onde existências como a sua teriam dignidade
e, talvez oportunidades para ir além
Não acabar tão cedo...
Ela ouviu ele dizer que buscou no céu um brilho
mas não viu uma estrela sequer
Ele falava de esperança
Ela entendeu a falta
É como ela se sente, uma estrela apagada
Hoje alguém nasce, alguém faz aniversário, muitos desaniversários
Hoje alguém também morre
No agora de sempre as gentes vão se esquecendo como
a experiência de existir é assustadora e frágil
assustadoramente surpreendente
assustadoramente aterradora e assombrada
Ela queria ser colorida
Ela queria ser feliz
Ela queria ser
Ela queria
Ela.

(...)

Os livros abandonados na estante e as bonecas de pano mágicas guardadas numa sacola velha
Desejos para a casa que nunca teve, para o lar que não construiu, para a paz que não veio.

Fechou-se num certo lugar do Amor
lhe pediu abrigo e esquecimento
e se foi devagar como algodão doce derretendo na boca
como as sensações naturais e não naturais mais prazerosas
que se possa imaginar

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