De que lugar ela fala? Está sendo? Sentindo e realizando com tudo que pode?
Cristina olha o horizonte.
O vento forte corta-lhe a face, fazendo com que suas lágrimas
escorram pelo rosto como pequenas gotas de uma chuva fina.
O vento seca seus lábios já mudos, segredando-lhe palavras do tempo.
Já havia andando demais, por horas intermináveis, relógio da memória quebrado.
Fazia sentido? Estar aqui ou lá? Continuar?
Manter a lembrança daqueles olhos em seu próprio olhar?
Não dar atenção as vozes assombrosas
que constantemente procuram devorar seus sentidos,
calar sua consciência.
Verdades? Sabe que tudo que é gritado aos seus ouvidos
naqueles momentos mais sombrios foram construídos
ancestralmente e moldados historicamente para paralisar
aqueles e aquelas que ousam ir além do permitido...
Cristina acorda do torpor de instantes, procura dentro da bolsa
algo que possa lhe dar uma noção de identidade ou pertencimento,
e não a ilusão de fazer parte do exército que será engolido pelo sistema.
O filme que assistira ontem, o amigo que perdera na semana passada,
o sorriso que não veio, as ruas cheias de pessoas vazias de si mesmas.
Sabe que não encontrará sossego nem abrigo. Não há nada dentro da bolsa,
do guarda-roupa, dentro do coração do amor que não se realizou.
Ela engole o nada, arruma a roupa e volta o mais rápido possível para
casa, o seu lugar com paredes exatas.
Espaço onde a sua existência pode ser percebida.
Um copo de água em cima da mesa, a cadeira afastada,
a toalha molhada pendurada no box, as sandálias emborcadas no tapete da sala,
a xícara de café esfumaçando em cima da mesinha junto da folha de papel em branco.
Sinais de que ainda está ali, matéria, substâncias, reações químicas.
Cristina quer escrever sua existência no mundo, mas não sabe como.
Angústias gritam dentro do seu corpo pequeno de mulher.

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