terça-feira, 17 de novembro de 2020

Heras

"Tive um sonho" Penso em começar assim
Não foi um sonho 
Olhos bem abertos buscando enxergar o que não consegue ver
Como teria certeza do amor? Ter certeza que há espaço, lugar para seus sentimentos
no coração da outra, aquela outra que deixou cair sobre si feito chuva
Não queria que secasse e mesmo fugindo do sol
Mesmo assim o tempo tratou de fazer memória às gotas frescas na pele
Embora ainda por dentro chovesse
Chovia sol e lua, chovia dia e noite, chovia arco-íris e estrelas cadentes
Ele, feito criança sem compromisso, descobrindo o advento da água que cai do céu 
molhando a pele, água rolando pela sua nuca, nas suas costas, pescoço
afagando seu peito, fazendo cócegas na barriga
Chuva chovendo, a cair lhe beijando as bochechas, olhos cerrados alternando-se com olhos curiosos
para sentir aquele infinito 
branco acinzentado? Uma infinitude de formas e sons.
A chuva foi branda, torrencial, trovões e raios iluminaram seu olhar absorto, surpreendido
Se alguém me dissesse que se pode viver, dançar, amar naquela chuva
Eu acreditaria
Porque quero acreditar que o amor é possível, que a paixão movimenta os astros dentro e fora de nós,
ainda que não os vejamos com frequência
Acredito que, toda vez que se encontravam tudo se iluminava feito luzes de natal, luzes de neon
em roda gigantes de parques de diversões onde moram a esperança de alegrias inesperadas e espanto ao descobrir borboletas no estômago, flores nos pulmões, pernas, mãos e pés formigando, coração formigueiro, zumbidos de abelhas nas cerejeiras e pessegueiros envolvendo os dois corpos, fazendo festa nas almas entrelaçadas, enroscadas feito heras avermelhadas, primaveras enfeitando seus sorrisos, dentes, boca, língua, saindo pelos ouvidos... Cíclico? Ciclicamente era o movimento que os envolvia, vida viva sempre se fazendo, desfazendo, refazendo
Em ritmos ora distintos, ora parecidos, buscando harmonias
E mesmo ante as desarmonias, sons, toques e desejos eram compreendidos e trabalhados, aprendidos
Ele pensou medo, ela desacreditou em confiança, perderam o chão feito de sonhos que plantaram para os dois
Nos abismos de si, ele ela se encontraram e se perderam, línguas falando esfinges e respondendo charadas
atrasadas por sentimentos que ilusionavam uma distância que não havia
Como acreditar que algo passou se pulsa alvoroçado o peito na sua menor lembrança?
Como ter certezas se sobre o que ainda se viveu tão pouco, ainda mais algo tão simples e ao passo tão complexo quanto o amor?
Como ter tantas certezas se ainda há mil vidas para viver, tanto a aprender e ele ainda nem foi na roda gigante, ela ainda nem saiu do carrossel, onde o esperava com seu algodão doce lilás e seu sorriso tão colorido e frouxo que ele pensava que pegando carona naquela felicidade, poderia reaprender a sorrir de verdade e esquecer de fazer malabares com as próprias dores
Não para "era uma vez".
Não quero mais "eu tive um sonho".
Ainda desejo "Conheço um amor que parece estória, de quando me lembro, começou assim..."
Porque quero acreditar no que vi e não no que se imaginou ter perdido ou sequer ter acontecido por não saber ou conseguir enxergar, por ter deixado de sentir por aquele velho medo de ficar 
"Mas e se não der certo?"
Eu queria poder responder que não existe certo e errado, antes corações dispostos e sinceros
Que de mãos dadas podem correr para a sala de espelhos ou para a pista ensaboada
com bolhas multicolores enfeitando os cabelos dela e pousando nas mãos dele, voando com o sopro
dos dois
E no vira, cai, levanta, abraça, sorri, beija e ama é que a história se faz.

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