sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Contínuos

Te escrevo, meu bem, não pude evitar.
São tantos dias sem a tua presença, sem o som da tua voz, 
sem a cadência do teu peito a respirar me ninando dentro das noites angustiadas,
sem o teu olhar mirando as paredes imaginárias da minha memória.
Sinto tua falta pela casa, pela rua, pela vida, dentro da minha alma,
das minhas palavras, teu gosto na caneca de vinho, fios do teu cabelo, desprendidos do teu corpo, deixados pelo tapete da sala.
Você pode imaginar como eu estou vivendo os momentos
Eu sei, você bem disse, eu me cobro em demasia e faço alvoroço com as minhas limitações
Não me respeito e já consigo admitir para mim mesmo na minha solidão
Nós já sabíamos, quando você aparava uma lágrima minha e envolvia meu rosto em carinhos
quando aparava o rio de meus olhos e lambia, feito água de fonte, dizendo que dentro do gosto da lágrima
tem o gosto das vontades que o coração insiste em transformar
Eu sei que você disse que, do mesmo modo que eu precisava ficar sozinho para me encontrar,
você também queria caminhar entre as suas solidões e reencontrar o seu passo, colocar o seu pé
dentro da pegada identidade tua e reconstruir teus sonhos também esquecidos, assim como os meus.
Eu sei... estava difícil encontrar o nosso silêncio. A casa não precisava ser maior... poderíamos estar numa mansão, num castelo! Era dentro de mim, dentro de você que tudo ia espremendo e diminuindo.
Escrevo esta carta e titubeio porque sei que quando teus olhos pousarem sobre cada palavra minha, teus braços vão querer abraçar as minhas asas ainda informes, e num misto de medo e amor, você vai acreditar que é possível encontrarmos cada um o seu caminho e depois continuarmos o nossos caminhos caminhantes.
Eu sei que você vai rir lembrando de quando eu te disse que esquecia como se ria e comecei a chorar e então você desandou a contar acontecimentos e eu ria chorando, eu chorava sorrindo e dentro do nosso abraço nos expandíamos e conseguíamos ver nossas verdades e estarmos despidos de todas as realidades passadas,
de todo passado, assim e assado, pesos pesados que não nos pertenciam mais.
Estou cansada e quero deixar de repetir que estou cansado.
Toda manhã, a cada entardecer, cada vez que suspiro,
é inútil a promessa de não dizer "eu te amo" e só dizer fazendo, agindo, acontecendo?
E foi dizendo eu te amo que você me deixou aquele origame de fênix, feito de madrugada,
você sentado diante da luz que vinha da rua através da janela, da luz da noite que beijava o chão do quarto, aquela luz que também era da lua que você tanto gosta. 
Dobrando a folha colorida porque você me enxerga arco-íris, ou todos os elementos da natureza, dentro do mundo e fora dele, eu sou estrela, sou mar, eu sou possível e só um papel bem colorido poderia ter imagens tão psicodélicas ou caleidoscópicas para poder me lembrar.
Eu te amo você arrumando a mochila e deixando aquele seu casaco antigo e levando minha jaqueta quase nova.
Eu te amo você amarrando a fitinha verde e lilás no guidão da moto.
Eu te amo você escrevendo aquela carta que você não queria mas sabia que precisava
você não queria borrar a folha com choro antigo, não queria refazer o dito como se a perfeição fosse possível ou algo que nós nos importamos
Foi eu te amo cada palavra sussurrada ao ser escrita: passarada em revoada das minhas tardes, você é coletivo e eu embarco num sonho contigo, ainda que tenhamos que começar separados, daqui a pouco eu sei e acredito, que o teu sorriso vai sorrir em ti e em mim de novo. Redescobre teu sorriso porque eu vou refazer a minha alma para ele poder ressoar e festejar e eu poder ser eu mesmo também, como nunca antes, como o sempre do sonho do menino que fui e ainda sou. Me espera mas não pára. Daqui a pouco eu estarei te esperando voltar, sentado no batente da porta, com pão quente e aquele sonho recém feito daquela padaria do outro lado da cidade. E eu prometo que nunca mais te agarro com força quando estiver na sua garupa... eu sei que para ouvir aquele seu grito de alegria existem outros modos e para nos sentirmos inteiros e plenos não precisamos pensar que tiramos um do outro, mas dividimos um com o outro todas as coisas. Me espera. Eu sigo te esperando. Continua. Contínuos.
(...)
Repouso a caneta na folha de papel  e saio a caminhar pela casa
A tarde me faz desaguar em rios de meus (teus?) renovos. Contínuos.


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