sábado, 5 de maio de 2018

Remontagem

Por muito tempo a dor esteve aqui dentro, sem forma, crescendo a medida que eu também crescia, e me sufocava.
Se misturava aos meus gostos, ao meu jeito de olhar, aos sabores que eu experimentava, as músicas que eu ouvia, mãos que eu tocava, abraços, beijos, despedidas, chegadas e partidas de pessoas queridas da vida que ao passo que se desmanchava, se alinhavava, num tear emaranhado.
Nós que para serem desfeitos seria preciso cortar as linhas que os faziam entranhar tecido da existência. Fazer buracos, talvez estragar o tecido do viver.
Já não sabia o que era eu e o que era a dor. Não sabia onde ela começava e eu terminava.
Dois passos, um era meu o outro... dado por ela.
Ela falando na minha voz, acordada com a minha insônia, se alimentando do meu cansaço.
Cair em abismos profundos. Tive as asas cortadas tantas vezes. O corpo cravado de espinhos, de lascas de pau e rocha, de esquecimento e indiferença.
Caminhei com a morte. Asfixiada com as mãos pesadas da solidão que consome.
O tempo virou. E dois olhos profundos que escondem o que sentem, ao passo que revelam
viu a minha máscara, minha cara pintada, meu corpo dolorido adornado.
Para além da aparência sua energia me envolveu inteira e eu deixei.
Enlaçados, experimentamos caminhos, enlevados, inebriados transcendemos.
Da fusão de duas forças, supernova explodiu entre nós.
Desabei das nuvens para onde seus braços e abraços me levaram.
Diante do abismo, novamente, foi a primeira vez que eu hesitei.
E precisei de ajuda para voltar a ver, a andar, a sorrir, a falar, a continuar.
Aquela água de mar veio me envolver novamente. E eu que tanto queria morrer no mar.
Suas ondas me envolveram num abraço, seus mistérios me confrontaram.
Andando pelo asfalto frio, longe daquele mar, um lampejo fez tudo se iluminar novamente dentro de mim.
Quem eu era, o que eu queria, como era quando eu sonhava?
Havia encontrado a raiz de toda aquela dor que insistia em engolir a minha identidade, meu gosto pelas coisas, as cores e formas de meus cabelos.
Eu não gostava era da minha vida como parecia, uma prisão. Minha casa, meu quarto, que caminhos seguir para liberdade? A desesperança causou toda a dor. Inverdades e ilusões construídas por corações magoados me fizeram acreditar que eu não podia, que eu era nada, ninguém, sem força, sem potencial, não conseguiria por mais que tentasse.
A prisão. Foi ela que me adoeceu. A ideia da prisão, de não haver saídas, de não poder ir embora, as limitações, incapacidades acreditadas.
Depois de descortinar e desnudar a Dor, o que eu vou fazer agora?
Quem eu vou ser? Talvez essa seja a primeira vez em toda vida que eu realmente me reconstrua.

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