domingo, 22 de abril de 2018

Uma nota de destruição

Helena tinha o fitinha na mão, queria se sentir desacreditada enquanto a mirava no ar.
Mas conhecia o seu corpo e os sinais do tempo.
Havia algo crescendo dentro dela, algo que tudo nela negava.
Jamais quisera ser mãe. Ou quem sabe, talvez quisera num tempo muito distante,
quando os sonhos ainda eram doces e havia esperança brincando em cada esquina.
O que faria? Dominada pelo desespero da impossibilidade de caminhos que não via,
Helena se contorcia, tremia, convulsionava de choro.
Uma solidão densa abraçou toda sua existência e a cada hora que passava,
o abraço apertava, sufocando os pensamentos e a vida de Helena.
A quem recorreria?
Neste país, onde a mulher tem seus direitos limitados, recortados de acordo com a vontade
do Estado Patriarcado, o Estado masculino, o Estado em todas suas formas violentas, dominadoras,
contraditórias engolindo todo ser que dele não participa das vontades ou dominação.
Na ilegalidade Helena procurou assentar seu  consolo angustiado.
Remédios para reumatismo que, tomados de determinada forma, corroía não somente
o saco embrionário de 5 semanas em seu ventre, mas consumia seu interior feito o câncer,
que não há muito havia levado uma parte do seu corpo.
Fora da ficção não existia troca equivalente.
Uma. Duas. Três vezes Helena rasgou-se de dentro para fora. Nada acontecia.
E aquele algo continuava a existir junto com ela.
Medicina fria a perguntar e ditar regras e normas vis.
Com dinheiro tudo se compra nesta vida. O dinheiro paga silêncios, compra abrigo,
amores mascarados fadados ao vazio e fracasso, mas com tempo suficiente para enganar o dor.
Aonde está o pai? Pai? Se não há criança, nem cria, nem ela mesmo era mãe
como poderia haver um pai?
Talvez um parceiro. De uma noite distante de paixão, onde tudo parecia êxtase e transcendências.
Parceiro de delícias? Não havia ninguém, só a solidão a lhe agarrar forte pelo pescoço.
São dois apenas no momento do sexo, fora dele existe apenas a mulher sozinha.
Helena ruminava a história. Chegou um tempo em que já não conseguia chorar.
Camisinha, pílula do dia seguinte, período de fertilidade alto...
Embaixo do chuveiro, enfiava objetos pontiagudos, cortantes, redondos dentro de si.
Seu ventre era um amigo magoado.
Em vão Helena batia forte em sua barriga, chorava um choro seco, de deserto, sem lágrimas.
A solidão aumentava. A impossibilidade de estar sóbria, acordada, o sufoco de esperar o destino incerto.
Pela quarta vez Helena tomou as pílulas que rasgavam o seu útero.
No desamparo de esperar as horas que corriam e o sangue que não vertia,
a mulher sem fé, porque acreditar já não conseguia, buscou ingenuamente
no submundo óptico e tecnológico o misticismo, sua última prece antes de morrer.
Lia e fazia tudo de acordo com os comandos.

Queria chorar, berrar bem alto, enfiar uma faca no peito, se abrir ao meu. 
Já desacreditada, Helena sentou no vaso sanitário, encostou a cabeça na pia, desejando
descobrir ao amanhecer uma maneira para morrer.
Quando se levantou viu que pequenos pingos de sangue corriam entre suas pernas.
Foi a fé? Fora a medicação, que já tóxica em seu corpo, partira, enfim, o elo entre ela
e a possibilidade de outra vida?
Amanhecia, mas Helena era toda escuridão. 
No hospital ouvira a palavra que não deveria soar como crime, aborto. 
Aborto não era somente interromper uma gravidez indesejada, não era somente assegurar o direito da mulher escolher ser ou não ser mãe,
permitir ou não uma existência de se desenvolver, coração, cérebro, emoções, vida e estatística neste mundo.
Aborto era a morte nela. Era a morte nela sem morrer. Era a dor personificada, materializada.
Procedimentos para Helena não morrer. Curetagem. Injeções, Hipotermia.
Choro. Cumplicidade na atmosfera fria. Repouso por alguns dias. Solidão.
"Para onde vai a minha vida agora?"
A dor dentro de Helena era maior que o mundo fora dela.
Era maior do que a sua consciência. Era maior do que tudo. 
Todos os dias de angústia, todas as pessoas de sua importância e amor que foram afetadas pelo 
seu estado de alerta, pela sua tormenta. A noção de que seu corpo não era seu de verdade. Tantas questões, tantas e tantas outras histórias na história dela.
Helena queria ser forte. Corajosa. Ter esperanças. 
Helena era só desespero, inércia, apatia, dor, silêncio perigoso. 
(...)
Num momento a vida florescendo. Noutro tudo era devastação.
O que faria? A quem pedir ajuda? Como continuar vivendo?
Helena só existia dormindo, dopada, calada, fria.


Helena em Contos de Enlouquecer

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