quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Papo furado

Saiu andando sem saber aonde e como pararia. Queria correr, gritar, dilacerar-se.
Para quê cordialidades e educação sob medida?
"Como você está? E o trabalho? Por onde você anda? O que está fazendo?"
Terrivelmente e aterradoramente ainda viva. Viva?
Ainda complacente, com esses olhos absurdos e essa boca que ri.
A mesma boca que responde às perguntas mais superficiais e cretinas.
O mesmo raciocínio que busca explicações para oferecer a quem quer que considere um absurdo ou um desperdício ela não estar “vivendo uma vida de sucesso”.
E daí que não conseguia dormir? Queria perder a consciência.
Estar desprovida de qualquer senso de identidade, de coerência, traços de sanidade.
Era maldade e confusão a realidade.
E daí que andar pelas estradas da vida dói feito ferro em brasa queimando-lhe as carnes?
Cansou-se de explicar. De sorrir. Ser cordial.
Andará numa solidão estranha. Despirá o que ainda há, suas vestes mundanas e celestes, seu semblante pacífico e toda construção de como deve ser, serenidade.
Cansou de rasga-se. De tomar remédios e venenos, de se jogar da ponte, de cortar a garganta.
De se esquecer. De parecer.
Seguir o relógio e o ritual.
Ela morreu. Ela sabe, sente. Morreu naquela madrugada.
De alguma forma, no entre lugar, aqui e lá.
Definições?
Não irá se desculpar. A casa foi consumida pelo fogo. O templo ruiu e tudo ficou para trás.



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