Ela entreolha a sala sob a luz da lua que adentra a porta da varanda na casa vazia.
Embora quisesse tomar um chá, bebia whisky com gelo. À disposição, na mesinha, canetas, papéis, fotografias, incensos e talvez cigarros dos quais jamais fumaria.
Vestia uma blusa larga deixada para traz e shortinho de algodão, cabelos ligeiramente bagunçados, brincos esquecidos de serem retirados, nos olhos ainda a lembrança do lápis preto. No lábio só as verdades nunca antes pronunciadas.
Era só sexo. De todos os seus encontros... A maior parte só sexo.
Não havia encontro de almas, somente corpos se deixando entender, decifrar, saborear.
Muitas vezes seu corpo sedento diante de um corpo vazio.
Talvez fosse maldição essa profundidade de sentir, esta facilidade em ler olhares, pensamentos, saber dos caminhos. Não se tratava de acreditar ou não. Era o que vivia, negar seria mentir quem era, mentir a existência que aprendera, suas abstrações e sua metade palpável entre dedos e dentes.
Era só sexo. O encontro, a sensação da pele, do beijo, o sabor e a temperatura da língua em diversos lugares. O corpo era um mapa para ser percorrido, parque a ser passeado. Nos olhos só o desejo, no abraço a vontade de ficar um pouco mais na tentativa do encontro maior.
O primeiro, o amigo, o favor, imagens já sonhadas configurando matéria. Mas ela era solidão. Com ele transcendeu todas as barreiras impostas pelos ensinamentos que programam pessoas para serem uma única massa não pensante.
Confessaria que se esforçou para não se apaixonar por aqueles cabelos pretos, suas singularidades e suspiros, seu olhar de quando em vez de mistério, de quem queria se aproximar um pouco mais... Superou a velha história cheia de correntes da virgindade.
Talvez o primeiro, efetivamente, com seus olhos de um castanho claro que ampliavam um mundo de delícias, sua boca cheia de sede, sua pele, suas cores, e todo o encanto que o envolvia a fazia pensar que ele poderia transpor todas as superficialidades e ir além do gozo absoluto do corpo.
E todos os outros que vieram depois... Ela queria que fosse amor, chegou a pensar e acreditar cegamente que finalmente acontecia. Era tudo: apego, cuidado, descoberta, curiosidade... Amor? Amor não era.
Era preciso encontrar a alma, ter fundido em dois corpos um universo. Multiverso.
Em duas individualidades uma cumplicidade sem necessidade de pronúncia ou proclamação.
Seu coração era um sertão de solidões, de sentimentos na fila para acontecer, uma terra estrangeira que ninguém explorara, uma fera sem haver quem se aproximasse,
Insinuações? Vinha por meio de frestas do segredo do outro, da paixão em comum por alguma arte, uma harmoniosa dança que se dissipava a um contato mais afoito. Então tudo se perdia como fumaça branda indo embora com o vento.
Só a insinuação do amor.
Num único gole bebeu todo o líquido do copo assistindo Eros, eroticamente, bailar diante de suas visões noturnas e buscas dentro de si mesma por outros caminhos e compreensão.
Os cabelos loiros, os olhos azuis que faziam todo seu universo se expandir e as portas e janelas se abrirem como num sopro das estações, o beijo que parecia não somente beijar a boca do corpo, mas a boca da alma, num segundo entre seus braços de olhos fechados, noutro distante em algum lugar vivendo uma realidade qualquer.
Tantos foram os tempos, de chuva e sol, de fogueiras acesas, de vontades não saciadas, da transcendência prometida, ansiada... Expansões da consciência sem ajuda de artifícios.
Todos os beijos que poderia estar acontecendo ainda agora, inacabáveis, dando sentido e forma aos seus sonhos adormecidos, enganados, distraídos. Suas necessidades, seu pedaço que faltava no quebra-cabeça de si.
Cada contato com o ser desejado se configurava um véu, e haviam muitos a serem tirados, devagar, com delicadeza, com surpresa e vontade. O sexo era um deles, mas nunca, até então, conseguira transpor o que vinha depois dele. Na sua imaginação tudo acontecia, mas Eros sorrateiro brincava entre os véus, feito amante a se esconder, atiçando a chama alta do desejo pelo ser amado.
Proclamado e anunciado. Sem jamais ter estado presente.


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