Ela se sentia diferente toda manhã em novidade que se apresentava.
Uma emoção diferente, um sentimento a lhe inquietar, diverso do que sentira ontem, ou anteontem.
No almoço a outra surgia novamente em seu pensamento. Ela se questionava se não havia ficado louca, ou qualquer coisa do tipo por pensar insistentemente em uma pessoa da qual não se tem mais interesse.
No passado ela fora seu grande amor. Grande? Amor? Talvez ela tivesse sido apenas alguém em quem ela se escondeu e acabou se tornando responsável pelo destino. Se tornou ou acabou por acreditar que era responsabilidade sua ajudá-la em seu crescimento humano, seus processos evolutivos.
Por que diabos era que ela pensava na outra tanto assim?
Pensava também no vizinho bem sucedido e pacífico, que era instrutor de yoga e vegano. Pensava na colega de trabalho que era ativista política, marxista, conhecia o período da ditadura e pós ditadura brasileiro o processo de redemocratização do país. Chegou até a sonhar com aquele sujeitinho medíocre que costumava destilar preconceitos num bar que frequentava às quintas-feiras.
Mas pensar na outra a incomodava porque ela não queria, como se pensar fosse algo que denunciasse a sua paixão não superada. O que era paradoxal, já que não sentia atração pela outra, pela mulher que a outra havia se tornado depois de tantos anos, sequer era alguém que ela admirasse ou seria amiga caso a conhecesse nos dias atuais.
Por muito tempo acreditava que um laço unia suas vidas, mas descobrira ou atestava com o tempo que o único laço que une pessoas é o amor, algo em comum... quando não mais há isso, não há mais nada a não ser memórias que se conversam. Aprendera depois de muito ler sobre teoria quântica e tantas outras crenças sobre a existência.
Talvez ela se irritasse em pensar na outra porque estaria numa condição de vida melhor do que a sua?
Ela havia superado a necessidade dos seus conselhos e da sua presença em seus dias?
A outra se tornara alguém melhor do que ela? Com oportunidades melhores na vida, com uma profissão melhor, ganhando melhor, se relacionando melhor com as pessoas e se tornado alguém popular e querido?
Suposições lhe ocorriam. Nada pudera reivindicar como razão, já que eram pessoas totalmente diferentes, então as escolhas na vida seriam diferentes, com olhares e perspectivas diversas.
Por que sentia que havia nela um sentimento que a impulsionava a provar alguma coisa a outra?
Batia o pé e acreditava que não precisava fazê-lo, nem pela outra nem por ninguém.
Estava envelhecendo, cabelo levemente desajeitado, unhas ao natural. Ao passo que se percebia mais atraente e se sentia bem consigo mesma. Os elogios agradavam-na, mas não era algo que a obrigasse a ter e ser determinada coisa ou pessoa da qual não estava interessada. Estava solteira por opção? Nunca mais tinha encontrado alguém interessante ao seu olhar, sua conversa.
Vai ver estava mesmo envelhecendo e outras coisas importassem mais do que estar com alguém para não estar só. Gostava de estar consigo mesma.
Tantas coisas a incomodavam naquela etapa ou momento de sua vida. Queria mudar o jeito de viver, o emprego, mudar de casa, de cidade, ares mais respiráveis.
Talvez o problema não estivesse no lugar, e sim nela.
Mas... E se o problema estivesse nos dois? E se ainda, não houvesse problema, mas um incômodo que nascia dos recônditos de sua alma, nada calma, que buscava razões para continuar sendo e existindo?
Para o diabo com todas as afirmações e reflexões banais sobre a história recente e a antiga!
Queria viver sem precedentes, ler seus livros por puro prazer. Tomar o seu vinho, comer sua comida, lavar a sua roupa, vestir-se limpa e bem passado depois de um banho quente e de um dia suave. Dormir seu sono santo, sonhar profanamente em paz, desfazendo, assim, as dualidades facilmente construídas e dificilmente esquecidas.
Talvez o incômodo fosse o ego, gritando que ela havia de ser melhor em tudo ao se comparar com seus amores antigos.
Havia algo errado. Ela não estava interessada em comparações, não se daria ao trabalho de ser melhor ou pior, e "seus" não era o pronome adequado para relembrar amores ou experiências vividas.
Deixou o almoço de lado. Nas outras vezes acabava comendo demais, uma maneira de saciar um certo espaço vazio no interior de si. Esperaria o café da tarde, hora amena, que lhe abraçava os sentidos, momento em que não se sentia tão louca, deslocada, desfocada, magoando a si mesma porque desde cedo aprendera que isso é o que deveria ser feito, magoar-se para não se orgulhar. Ensino brutal sobre humildade. Lhe queimaram como ferro de marcar gado. E mesmo depois de tanto tempo, parecia que a marca havia lhe chegado até os ossos.
Trabalhava emocionalmente para não se incomodar mais.
Porque o incômodo acabara se tornando a lembrança da marca. Ainda que fosse quase impossível, ela tomaria café e comeria o seu pão sentado com a sua dor da vida, como se fosse uma velha amiga, esperando o momento de partir, de ir embora definitivamente, como quem morre dormindo, como quem esquece naturalmente.
Uma emoção diferente, um sentimento a lhe inquietar, diverso do que sentira ontem, ou anteontem.
No almoço a outra surgia novamente em seu pensamento. Ela se questionava se não havia ficado louca, ou qualquer coisa do tipo por pensar insistentemente em uma pessoa da qual não se tem mais interesse.
No passado ela fora seu grande amor. Grande? Amor? Talvez ela tivesse sido apenas alguém em quem ela se escondeu e acabou se tornando responsável pelo destino. Se tornou ou acabou por acreditar que era responsabilidade sua ajudá-la em seu crescimento humano, seus processos evolutivos.
Por que diabos era que ela pensava na outra tanto assim?
Pensava também no vizinho bem sucedido e pacífico, que era instrutor de yoga e vegano. Pensava na colega de trabalho que era ativista política, marxista, conhecia o período da ditadura e pós ditadura brasileiro o processo de redemocratização do país. Chegou até a sonhar com aquele sujeitinho medíocre que costumava destilar preconceitos num bar que frequentava às quintas-feiras.
Mas pensar na outra a incomodava porque ela não queria, como se pensar fosse algo que denunciasse a sua paixão não superada. O que era paradoxal, já que não sentia atração pela outra, pela mulher que a outra havia se tornado depois de tantos anos, sequer era alguém que ela admirasse ou seria amiga caso a conhecesse nos dias atuais.
Por muito tempo acreditava que um laço unia suas vidas, mas descobrira ou atestava com o tempo que o único laço que une pessoas é o amor, algo em comum... quando não mais há isso, não há mais nada a não ser memórias que se conversam. Aprendera depois de muito ler sobre teoria quântica e tantas outras crenças sobre a existência.
Talvez ela se irritasse em pensar na outra porque estaria numa condição de vida melhor do que a sua?
Ela havia superado a necessidade dos seus conselhos e da sua presença em seus dias?
A outra se tornara alguém melhor do que ela? Com oportunidades melhores na vida, com uma profissão melhor, ganhando melhor, se relacionando melhor com as pessoas e se tornado alguém popular e querido?
Suposições lhe ocorriam. Nada pudera reivindicar como razão, já que eram pessoas totalmente diferentes, então as escolhas na vida seriam diferentes, com olhares e perspectivas diversas.
Por que sentia que havia nela um sentimento que a impulsionava a provar alguma coisa a outra?
Batia o pé e acreditava que não precisava fazê-lo, nem pela outra nem por ninguém.
Estava envelhecendo, cabelo levemente desajeitado, unhas ao natural. Ao passo que se percebia mais atraente e se sentia bem consigo mesma. Os elogios agradavam-na, mas não era algo que a obrigasse a ter e ser determinada coisa ou pessoa da qual não estava interessada. Estava solteira por opção? Nunca mais tinha encontrado alguém interessante ao seu olhar, sua conversa.
Vai ver estava mesmo envelhecendo e outras coisas importassem mais do que estar com alguém para não estar só. Gostava de estar consigo mesma.
Tantas coisas a incomodavam naquela etapa ou momento de sua vida. Queria mudar o jeito de viver, o emprego, mudar de casa, de cidade, ares mais respiráveis.
Talvez o problema não estivesse no lugar, e sim nela.
Mas... E se o problema estivesse nos dois? E se ainda, não houvesse problema, mas um incômodo que nascia dos recônditos de sua alma, nada calma, que buscava razões para continuar sendo e existindo?
Para o diabo com todas as afirmações e reflexões banais sobre a história recente e a antiga!
Queria viver sem precedentes, ler seus livros por puro prazer. Tomar o seu vinho, comer sua comida, lavar a sua roupa, vestir-se limpa e bem passado depois de um banho quente e de um dia suave. Dormir seu sono santo, sonhar profanamente em paz, desfazendo, assim, as dualidades facilmente construídas e dificilmente esquecidas.
Talvez o incômodo fosse o ego, gritando que ela havia de ser melhor em tudo ao se comparar com seus amores antigos.
Havia algo errado. Ela não estava interessada em comparações, não se daria ao trabalho de ser melhor ou pior, e "seus" não era o pronome adequado para relembrar amores ou experiências vividas.
Deixou o almoço de lado. Nas outras vezes acabava comendo demais, uma maneira de saciar um certo espaço vazio no interior de si. Esperaria o café da tarde, hora amena, que lhe abraçava os sentidos, momento em que não se sentia tão louca, deslocada, desfocada, magoando a si mesma porque desde cedo aprendera que isso é o que deveria ser feito, magoar-se para não se orgulhar. Ensino brutal sobre humildade. Lhe queimaram como ferro de marcar gado. E mesmo depois de tanto tempo, parecia que a marca havia lhe chegado até os ossos.
Trabalhava emocionalmente para não se incomodar mais.
Porque o incômodo acabara se tornando a lembrança da marca. Ainda que fosse quase impossível, ela tomaria café e comeria o seu pão sentado com a sua dor da vida, como se fosse uma velha amiga, esperando o momento de partir, de ir embora definitivamente, como quem morre dormindo, como quem esquece naturalmente.

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