Deitada ali ao lado dele, sentia fortemente o meu ser em dois mundos, planos distintos se cruzando.
Estando, transitória, dentro do seu abraço e vagando na minha solidão.
Levantamos, fazemos o café, conversamos sobre a vida e ele fala novamente sobre compromisso. Não fujo, não há tempo agora, não há lugar dentro de mim.
Ao passo que estar com ele me livra de estar a mercê do engano das gerações.
Ando pelas ruas, e de uma loja qualquer toca um som antigo, trazendo com ele
olhos e sorriso desenhados nas páginas de pedra da memória.
Então percebo o motivo de estar em rotação.
Minha história não depende daquela história de amor nunca concretizada para continuar. Não há culpa, tentativas esgotadas ou o se.
As escolhas determinaram os destinos mutantes ou as vidas paradas no tempo.
Eu voltei para mim mesma. E retornando a mim, alcanço as minhas verdades e as razões de existir. Eu não sou pela metade, sou plena de mim e a consciência disso me traz a sensação de que alcanço a liberdade de ser a cada novo instante. O susto da possibilidade.
Para me ver, ver o estado da minha alma através dos meus olhos já não preciso de espelho.
Estou nas pessoas da rua, na atendente da loja, no rapaz do caixa, no motorista distraído esperando o sinal abrir, na criança do parque, no senhor estrangeiro pensativo que carrega sua carta de amor envelhecida ao lado da sua cicatriz da guerra do Golfo.
Trago em mim todas as memórias de diferentes tempos e realidades históricas.
Eu nunca vou me acostumar, só que agora elas não me assombram mais.

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