domingo, 8 de março de 2015

"Você precisa voltar a ser normal"

Eu caminhava pela rua molhada naquela quarta-feira chuvosa, onde ninguém realmente se via. Apenas olhavam para onde queria ir e chegar.
Um velho e grande amigo me surpreendeu com um beijo de ternura no ombro. Eu sorri, o abracei, conversamos e tentamos a sorte na loteria.
Andamos pelas ruas, tomamos sorvete... E ao mesmo tempo que era ele, era outro.
Ele me olhou de repente.

_ Por que você está rindo?

Eu ria sem perceber. Ria porque via alguém que eu amava, que já há muito não encontrava. Eu via uma chama acesa na vida.
"Por que você está tão triste e sorri?" Vai ver é a linha tênue entre a loucura e a sanidade que se rompeu. Sorrio sem perceber.
"Mas todos os seus problemas seriam resolvidos com dinheiro."
Não entrarei na discussão de pessoas ricas, inteligentes, sensíveis, que aparentemente tinham uma vida ótima, mas, infelizmente, não suportaram a dor que sentiam, e para acabar com a dor, acabar com si mesmo pareceu a única saída.
Não, nosso cérebro não se resume a neurotransmissores e estímulos. Somos seres complexos, e quando uma doença psíquica, de cunho emocional se instala é preciso ter cuidado ao tratá-la. Às vezes, quando se chega a um estágio da doença, fica impossível voltar.
E de todos os lados e de cada pessoa que você conhece aparecem receitas de como mudar de vida, costumes, como você pode voltar a ser "normal", voltar a viver. A pessoa diz e vai embora. E com o que é que você fica? Quem é que te acompanha na jornada de "ser normal" novamente? Quem te enxerga com sensibilidade e te vê de verdade, e não somente enxergando a sua própria verdade e razão ao falar sobre fatos que, provavelmente desconhece ou se embruteceu para compreender?
Não. Eu não quero mais receitas. Não quero mais compartilhar como anda minha saúde, se estou indo a médicos, se o tremor passou. Não quero estar ao lado de quem não deseja também.
Que tudo que for de se desfazer, se desfaça feito cinzas ao vento. Quem for de ir embora, que encontre um bom momento e o caminho livre.
Fique quem tiver amor e a cabeça bem aberta e o coração paciente, caso borboletas começam a sair da minha cabeça. Caso eu esqueça meu nome ou talvez saia correndo pensando que meu peito vai explodir em todas as cores, e pintar as ruas onde crianças não tenham porque chorar e ninguém passe fome ou seja violentado, desrespeitado.

_ Você precisa é ir embora daqui!

Talvez eu vá para Bogotá, talvez volte para as estrelas.


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