domingo, 22 de março de 2015

Teus cabelos, como areia, escorrem pelas minhas mãos,
pesadas pela despedida.
Caminhando pela última vez por entre os espaços da casa que um  dia foi nossa... As lembranças vão contando suas origens... O tapete que deitávamos juntos, a mesa que tomávamos café em tardes de sol, o banheiro com o chuveiro meio torto, que mudava de temperatura toda vez que se abria a torneira da cozinha. A rede na varanda, o jardim, as roseiras, o portão onde tantas vezes nos beijamos.
Por todas as ciências, filosofias, teorias que já perpassei, que já mergulhei... Tantas perspectivas sobre o mundo, a vida e os relacionamentos... Ingenuamente  eu pensei que seria mais fácil viver tendo sabedoria.
Talvez tenha aprendido errado, vejo agora que com sabedoria se compreende melhor a vida, e mesmo se seu mundo for devastado, há maneiras de ser reconstruído. Facilidade não há.
Como uma boneca com a cabeça de louça, a história, a nossa historia se quebrou em mil pedaços. Impossível reconstruir.
Uma boneca sem cabeça é um brinquedo perdido, solitário, não compreendido. Sem perna, sem braço, sem roupa o brinquedo ainda apresenta uma graciosidade, um encanto, a falta o torna, por vezes, único e especial.
Mas, sem cabeça, não subsiste por muito tempo.
Vou contando os últimos passos pela casa, até o portão, pela calçada da rua que era nossa.
Meus sentimentos se expandem e se desfazem como cinzas ao vento. Ao mesmo tempo que tudo pesa, sou invadido por uma leveza cúmplice das lágrimas que me esquentam o rosto do frio dessa noite.
Vejo o passado se ajeitando no seu lugar, vejo esse momento da vida como os últimos grãos de areia escorregando dentro de uma ampulheta, que se prepara para ser virada ao contrário e o tempo voltar a ser contado outra vez.
De todas os laços, a confiança é um dos mais fortes, une vidas apesar de todas as distâncias, e quando se rompe, é uma boneca de louça sem cabeça.



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