sábado, 3 de janeiro de 2015

Porta de saída


"Lembre-se de como você era antes do trauma, esqueça aquele tempo ruim, esqueça tudo, volte a ser quem você costumava ser..."
Disse isso com toda força e fez os outros desejos como de costume, de acordo com o ritual de passagem.
Ela, uma sexagenária, que cuidou de mim feito uma mãe em terras desconhecidas.
Que viu nascer as dores, que assistiu as lágrimas, que me ensinou sobre respeito e sobre a dúvida.
Em silêncio permaneceu por um longo tempo, vendo definhar a moça que conhecera espantosa, se desfazendo em choro e amarras por não mais saber como seria viver depois daquela marca.
Das entranhas da sua própria história, subvertendo ensinamentos tradicionais e pensados imutáveis, por amor ela desafiou todo um sistema de crenças e dogmas e esbravejou a porta de saída da prisão.
Não suportaria ver mais um dos seus se perder por causa daquela fé cega, que cortava feito navalha afiada a raiz das nossas vidas.
E foi como se eu precisasse apenas daquelas palavras para ser livre, para recomeçar. Todas as prisões criadas pela mente e sentidas no corpo tão violentamente eram artifícios para fazer sofrer e manter sob o domínio os corações selvagens, destemidos, audaciosos... Como cavalos em cabrestos, distantes da sua real natureza.



Nenhum comentário: