Eu abri os olhos com dificuldade, a cabeça ainda pesava e todas àquelas lembranças ainda falavam alto. Eu sabia que aqui dentro elas não mais poderiam ficar. Pesando em mim, encobrindo, como nuvens escuras de fumaça, meu sol interior.
Desabafo. Não é fácil. Quero dizer, porque somente agora e desta vez, pela última vez, parece ser necessário ficar registrado, selando o fim das perturbações, acusações e assombrações ilusórias.
Eu fui, nós fomos... Deixadas.
Abandonadas por quem acreditávamos nos amar. E o abandono causa um estrago enorme na vida de quem quer que seja, seja na idade que for.
Mas, especificamente na criança fica aquele pensamento: O que eu fiz de errado?
Fica também a necessidade do esforço para mostrar que ela vale a pena, que ela pode ser amada, o que vai reverberar em todas as suas relações futuras, caso ela não encontre a raiz do problema real.
Ainda que eu me revolte por considerar injusto, absurdo, vil. Por mais que eu chore e brade palavras amargas, mesmo que verdadeiras... Nada. Absolutamente nada vai mudar o que aconteceu.
A única coisa que eu posso compreender e me libertar é entender que eu não tive culpa. Foi uma escolha que independia do que eu fosse ou era.
E reconhecer que eu também, agora, tenho a escolha de permitir ou não que alguém que foi embora retorne para a minha vida, do modo mais mesquinho possível.
Declino o convite. Não recebo a visita. Não quero mais essa relação destrutiva.
E junto com a dor da lembrança repetitiva do abandono, vai embora também as mentiras do amigo, a fantasmagórico presença na vida da amiga, a impressão de que eu nunca seria o suficiente. Vai embora as tentativas de suicídio- todas enigmaticamente sem sucesso- vai embora a sensação de não superação, da não conquista, da negação de mim mesma.
Vai embora a falta de amor, a solidão ruim- pois existe aquela que todo ser precisa, a solidão dos momentos de crescimento, do estar consigo mesmo/a- retiro na minha carne o signo da dor e da incompetência, que marcaram em mim feito marca feita na carne em bicho que tem dono e um dia vai para o matadouro.
Compreendi que não ter um determinado personagem na vida não me faz menor. Existem diversas maneiras de uma pessoa ser e existir. Que as limitações do que é ou do que pode ser uma pessoa, uma família, uma amizade, o amor... Sempre levam a grandes sofrimentos e a exclusão, a marginalidade de alguma forma.
Nenhuma parte de mim falta. Nem dentro nem fora. Tudo que tem é o que é para ter, para estar.
De todas as outras vezes eu fechava os olhos e abria os braços. Hoje, eu não preciso mais estar de olhos fechados.

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