domingo, 21 de dezembro de 2014

Solstício

Deito-me no chão do quintal ao por do sol. Talvez estejam brotando raízes de minhas mãos, de meus cabelos, braços, pernas...
Talvez eu esteja buscando, junto com as outras plantas, as águas profundas nesta terra seca. Reverenciando-a, meu eu está entregue.
Num momento já não estou mais atrelada ao chão. Minhas mãos alcançam os ares, e trazendo todas as lembranças doloridas da vida, num sopro, desejo que toda a dor vá embora, toda dor atrelada a cada lembrança ruim.
A violência do corpo, a violência da alma. A violência da vida.
Tudo se esvai num sopro, como os alfinetes do dente de leão.
Minha história recomeçará e eu não temerei mais essa dor atroz que me suga os sentidos e me fecha os caminhos. E eu não serei mais um barco à deriva, em alto mar, numa tempestade sem fim.
É o dia mais longo do verão. Tem sido uma dor muito longa para mim.



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