O que eu disser vai ficar gravado, cravado, nessas linhas até ficarem amarelas?
Eu queria te dizer que tem sido difícil, sabe? Acordar todos os dias como quem emerge de águas profundas.
Eu já abri mão de ter razão. De ter um determinado conhecimento, adequado, institucionalizado.
Esqueci nomes e histórias. Lugares e expressões. Definições.
Eu quis ficar mais bonita. Perdi o cabelo. Fazem anos que tenho perdido o cabelo por uma inquietação
que eu não sei identificar.
Depois que tive depressão deixei tanto de me preocupar em seguir uma espécie de modelo de mulher e cuidados vaidosos.
Tenho as unhas curtas. Me maqueio menos. Sinto falta de deixar o cabelo crescer. De me sentir á vontade em mim mesma.
Me perdi profissionalmente, mas estou me encontrando.
Encontrar é como achar aquele presente, escondido embaixo da cama, em manhã de aniversário.
Restabelecendo-me. Reinventando. Colando os pedaços para ser mosaico colorido, encantado. Enxergo possibilidades múltiplas. Desconverso, desconvexo linear.
Positivo, negativo. Claro, escuro. Uma vez ouvi que nada é isso ou aquilo. Definitivo. Então aprendi a ver nuanças em tudo.
Me perdoe, eu peço toda noite, por ter dito algo como verdade quando era apenas uma visão parcial, ilusão de criação de um jeito de sentir, engolir aquilo que precisa de certeza para poder aquietar inquietações.
Eu sei, isso não funciona. Quando você percebe que foi além do que podia, se sente culpado/a.
Eu disse o que não sabia, apenas para ter algo no que acreditar e calar vontades. Mas acabei errando novamente. Encruzilhada. Sempre acabo me enrolando nos meus próprios passos, dando voltas ao redor de mim mesma.
Ao fim, eu queria vomitar a noite passada e suas impressões inadequadas pela minha visão míope.
Eu não tenho mais vergonha de mim. Tenho aprendido a separar o meu eu verdadeiro do ego feroz.
E ela pergunta porquê ando falando tanto dessas coisas.
É do momento de crescer. É sobre o caminho que venho trilhando.
Vou te contar um segredo: Ele me disse que para crescer eu tenho que abandonar os velhos costumes.
Eu ainda não o fiz. Fico ansiosa. Choro, não quero levantar da cama.
E o que eu queria muito era ter sossego dentro de mim. Porque ainda existe o inferno.
Eu sei. Mas não sou mais prisioneira. Sou aprendiz.
Se eu te contar isso tudo você vai espalhar pelo mundo? Eu não tenho mais medo.
Não seguro nada nas mãos, nem em nenhum outro lugar em mim.
Meus braços, entre minhas pernas, dos meus olhos... Só água. Tudo se esvai.
E aprendo como ser com o vento. Com o elementos da natureza.
Me perdoe por julgar quando eu prometi que nunca mais falaria inverdades baseada numa dor do momento.
Não prometo nunca mais fazer isso.
Como num treino constante eu exercito o olhar sem caracterizar.
Prefiro estar de coração aberto e mente em paz, concentrada.
Mergulho no infinito do ainda desconhecido.
Desapareço no antes para nascer no agora do olhar de cada um, cada uma. Como um sonho, um susto do momento. Como uma luz. Um sorriso.
Agora. Sou agora. Só agora. Eternamente agora. Um instante.
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