Alice vive dias de ansiedade.
Não rói as unhas porque já as tem curtinhas.
Tem se achado tão pouco feminina e interessante.
Na verdade tem se visto bem desengonçada em frente ao espelho.
Completará 30 daqui a uns meses.
E sua vida teve que dar outra reviravolta.
O que é que uma mulher de 30 faz?
Como se veste, como comemora, como arruma o cabelo?
Roupa para sair, roupa para ficar, roupa para fugir.
Queria que tudo se danasse. Lá se importava em "como ser"?!
Uma cartomante havia dito que ela alcançaria o auge da sua maturidade
e do seu encanto como mulher aos 35.
35? O seu corpo inteiro entrou em colapso!
E até lá seria sua jornada para o amadurecimento.
Começava a pensar em ser mãe. Mas já tinha tantos filhos e filhas emprestados,
não nascidos da sua barriga e cordão umbilical.
Renascidos/as em seu seio amoroso, sua lembrança gostosa.
Estava apaixonada pelo seu melhor amigo. Que clichê.
Queria tomar um porre toda noite para esquecer.
Semana que vem começa o novo emprego.
O pensamento ouriça e se renova inteiro para receber a novidade.
Alice pinta as unhas curtinhas, compra um vestido novo.
Se vê tão simples diante do espelho. Consegue ver seu interior no fundo do seu olhar.
Se pergunta se está preparada.
Sorri. Afinal conseguiu superar anos de afogamento e esquecimento.
Tem lido e visto muita coisa. Cada dia as realidades lhe parecem mais confusas,
confundindo-se em si mesmas.
Ela caminha com as mãos nos bolsos. Nunca perdeu o costume.
Sua mãe dizia que era coisa de homem. Ora, era coisa de gente!
Deixou o relógio em casa. Foi ver a lua. Pendurou uma toalha vermelha na janela.
Antes um lenço. Antes uma placa. Antes fosse por causa de um amor que não a fizesse sair de casa.
Pois veria o céu inteiro se expandindo de um olhar.
Um amor, um emprego e uma casa. Não necessariamente nessa ordem.
Sempre foi assim.

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