domingo, 10 de agosto de 2014

Salto Mortal

As palavras tem sabor. Podem estar envenenadas ou adocicadas para o paladar amargo.
Nos últimos dias eu ouvi de tudo. Sabores que eu não soube e não quis digerir.
Vomitei a minha vida e as mentiras que teimam em se repetir mentalmente.
"Você é fraca!" "Você nunca vai conseguir nada." "Fracassada!"
Engraçado hoje ser dia dos pais e exatamente hoje eu ter conseguido escrever.
Eu disse que o amava. Mas eu me arrependi. Senti vergonha de ter dito.
Talvez algum dia possa amá-lo como se ama qualquer ser humano.
Outro dia o alter ego do masculino me disse palavras amarguradas.
Eu desabei feito prédio de 30 andares com alicerce comprometido.
Consegui reverter toda a dor em compreensão. E ao final do processo eu era só amor e sossego interior.
E aquelas palavras? Eram o eco das velhas mentiras.
Me voltei para quem a proferiu, professou, de braços abertos.
E como quem se precipita num abismo, de braços abertos para quem não soube acolher, eu sucumbi.
Eu havia arquitetado, pela última vez, a minha partida.
Doer a vida toda não é fácil.
Eu poderia ter nascido bicho, nuvem, rio. Mas, por que logo gente?
Num decorrer da vida vão nos contanto várias mentiras.
Dizem que é para ajudar a viver, que é para proteger, para ensinar.
Mentira é mentira. E num dado momento ela é descoberta e a consciência da construção do seu processo pode não ser boa.
Eu pensei na minha mãe, já não pode sofrer mais por mim. Já bastam esses 10 anos de... Desentendimento existencial. Em que ela chorou comigo, ficou sem dormir comigo, segurou minha mão na distância e ainda busca me proteger, para eu não sofrer mais.
"Não tem necessidade, filha, você se maltratar assim..." "Deixe de lado quem te magoa, quem não te trata bem."
Eu briguei a vida toda para não escutá-la, hoje paro e escuto a voz mansa e cuidadosa, me pedindo para pensar melhor.
Eu quis. E planejei.
Sairia num domingo de manhã. Cedinho. Ia para uma cachoeira que secou.
E no abismo de sua queda, só restou um rio triste lá embaixo.
Eu usaria dois fios de conta, transpassados feito um x. Vestiria minha blusa branca mais bonita.
Ficaria em cima da pedra, de onde antes só água corria. Agora tudo seca feito o meu coração de deserto.
Abriria os braços, meus olhos brilhando, eu feito um pássaro me precipitaria, e voaria!
Para findar o meu voo num riozinho tristonho e descansar o meu corpo entre pedras, limo e sempre vivas que resistem em viver.
Não me matei dessa forma, verdadeiramente.
Mas, resolvi viajar para espairecer, ver outras realidades, para que pudessem pintar o meu cinza. Delinear os meus borrados.
Queda livre. Abismo. Acredito ser a pior de todas as mortes. Quando você se violenta ou é violentada/o de tal forma que, emocionalmente, você não é mais. Todos os seus pensamentos, sentidos, impressões... Tudo é engolido. E o seu ser tragado pela escuridão da dor. Porque a dor cega, paralisa, aniquila.
Eu não sei como vou prosseguir agora.
Dormir por uma semana. Procurar no mundo dos sonhos caminhos novos para a realidade envelhecida, ressequida, imunda.
Esquecer o passado. Tudo acabou.
Definitivo definitivamente, eternamente agora acabado.
Depois as janelas se abrirão, e vai ter sol, fogos de artifício, céu estrelado,
gente sorrindo e comida feita em casa.
Vai ter esperanças, muito amor e abraços cheios de calor.
E da boca da vida só ouvirei verdades engraçadas, verdades suaves, verdades que não matam.


Um comentário:

Midori Tonosaki disse...

Guerreira, que tu possas se fortalecer a cada nascer do sol. Muita luz =)