quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Alívio

Será que algum dia ela vai embora?
Caso nunca vá, eu aprendo a lidar com ela feito velha conhecida,
lhe ofereço um café, um tanto de prosa e me despeço, mesmo ela prometendo voltar.
Refaço os meus laços partidos e desfaço os nós da vida.
Perdoo cada pessoa dentro de mim, e me perdoo por não ter sido perfeita
para cada uma delas. Me perdoo por ter me cobrado isso, me cobrado tanto.
E me encho de paz, como quem se prepara para partir.
Mas eu me preparo para fluir. Numa vida onde eu não procuro controlar
os acontecimentos. Não controlo nada, apenas vivo o que tem para se viver.
Hoje. Hoje eu amo ver as cores do dia, deixar minha mãe me dar carinho feito criança.  Hoje eu beijo meus livros, me fartando de conhecimento. Hoje me divirto com as figuras e os desenhos e os possíveis caminhos que a vida pode levar quando histórias se cruzam, conectadas anos luz, mesmo que isso não se saiba tão cedo.
Hoje eu amo meu amigo, me apaixono pelo meu cachorro, deixo o gato passear pelo quintal como quem conhece bem o mundo inteiro. Hoje eu danço como se fosse voar.
Hoje eu tenho tudo.
E me detenho diante do sol da tarde que se esvaia mansa, como um carinho lânguido. E desejo amor, e emano amor. Para todas as vidas que passaram pela minha vida, caminhos cruzados, histórias escritas. Reescrevendo a face de cada um, cada uma, refazendo o caminho do abraço apertado. Da conversa carinhosa, do olhar cúmplice.
Anoiteço com o dia.
Talvez para ser de novo. Ou para nunca mais.
Vou me transmutando, feito elemento da natureza.
Vou sendo, me deixando ser.

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