terça-feira, 22 de julho de 2014

Rascunho

Ela passeava pela sala com aquele copo de conhaque que o fazia ficar tonto, mesmo sem ele ter bebibo. Aquele vestidinho de verão, os cabelos soltos, desarrumados, que davam a ela mais charme ainda do que o penteado costumeiro do trabalho.
Depois de muitas insinuações, longas conversas fugitivas no horário do expediente, e-mails ardentes e sms no meio da noite, decidiram se encontrar.
Ela morava sozinha. Apartamento recém comprado, a sua mais nova conquista na lista de suas realizações.
Ele tinha um namoro de dois anos, se dizia apaixonado, mas estava ali, sentado no sofá, olhando-a dançar sensualmente.
Pés, pernas, boca, ombros, nuca, era tudo sedução.
Ela o puxou pela mão "Vem dançar aqui, abraçadinho comigo?".
Ele levantou, agarrou-a pela cintura "Você está tão atraente, sua louca..."
E a beijou, enlaçando seus dedos por entre os cabelos dela.
O perfume dela inebriava-o.
Ele sussurou ao seu ouvido: Meu deus, o que estou fazendo aqui?
_ Ora, estamos relaxando, curtindo a noite.
_ Mas eu tenho um compromisso.
_ Hum, e por que chegamos tão longe assim, meu bem?
_ É que... Você me enlouquece. Eu não consigo evitar.
_ Então esqueça por esta noite. Não há nada de mal. Amanhã você estará de volta a sua vida linda e perfeita com a suposta mulher da sua vida.
_ Não brinca, Letícia!
_ E não é o que você vive repetindo?
_ Mas ela é a mulher da minha vida.
_ Ah, meu bem, a sua vida anda pela metade, sinto lhe dizer. Se você está tão feliz e completo, porque surgiu espaço para nós?
_ Isso não tem nada a ver.
(...)
Ela toma todo o conhaque num só gole, se afasta um pouco dele e tira o vestido. Deixando-se ver, nua, convidativa.
Ele passa a mão no rosto num gesto de preocupação e sem pestanejar, agarra-lhe pela cintura novamente e a leva para cama.
Passaram à noite juntos. A madrugada à conversar.
As horas num entrelaçar de corpos e mundos.
Ele foi embora de manhãzinha.
Ao se levantar, ela foi direto ao banheiro, ligou o chuveiro e deixou a água morna lavar sua cabeça como quem deseja limpar o pensamento.
Não o procuraria, não ligaria. Também não o evitaria.
Sabia de cor velhas palavras e discursos.
Foi apenas aquela noite, foi só o desejo. E ela estava muito cansada para enfrentar novamente aquelas velhas situações sem um final feliz.
Ele chegou cedo ao trabalho. Não dormiu, mal comeu. Vestiu sua máscara mais bonita e séria. Ligou para a namorada, fez declarações de amor. Sorriu ao desligar o telefone. Certificou-se de que estava tudo em ordem, a sua vida como ele gostava.
Duas semanas depois, ele encontrou uma velha amiga num parque. Ela estava sentada assistindo o sol se por. Ele sentou alegre ao seu lado:
_ E aí, como vai?
_ Bem.
_ E o livro, quando sai?
_ Logo.
Ele fica a olhar para ela por alguns minutos. "O que você tem?"
_ Sangue nas veias.
_ O quê?
(...)
_ Por que está assim? O que foi que aconteceu?
_ ... Olha, apesar de eu não respeitar pessoas que fazem o que você fez... Não necessariamente a pessoa, mas as atitudes... Eu compreendo que foi uma escolha, e como tal, tem que ser respeitada. Mas... Fique sabendo que as vidas se afetam.
Ele se surpreendeu "Como é que você sabe? Melhor, como é que soube? Foi aquela imbecil que te contou, não foi?
_ Você bem pode querer piorar a situação, mas eu decidi que isso não cabe a mim. Se fosse antes eu teria contado a Júlia o grandessíssimo idiota que você é. Mas ela também escolheu estar com você.
_ Agora vai dar uma de justiceira das mulheres, vai contar à Júlia, defender Leticia e me colocar na fogueira?
_ Eu?... Eu vou para casa, fazer um café, tomar um banho quente e viver a minha vida.
_ Você é mesmo uma neurótica! Vai começar com aquele discursinho chato.
_ Eu sei quem eu sou, e o que você pensa à respeito não muda isso.
_ Você é minha amiga, deveria ficar do meu lado!
Ela se levantou, se espreguiçou, sorriu para o sol, e sentiu, pela primeira vez, que não lhe cabia a quem julgar, a quem defender, não havia situações para resolver, pessoas a salvar.
- Você teve oportunidade de escolher, e a fez. O que seria da vida se não houvessem as escolhas, os caminhos, e as linhas paralelas? Muitas coisas não se podem evitar. Mas você podia. A sua história está aí, você quem a escreve. Apenas não venha mais me pedir para passá-la a limpo.




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