quarta-feira, 2 de julho de 2014

Fim

Era alta noite, entrei no seu quarto para me despedir. Mas não havia ninguém. A janela entre-costada, a cama feita. Tudo em seu lugar. Na mesinha com uma vela que ia se apagando, o computador ligado. Sentei na cadeira que ela costumava sentar. Seu cheiro e sua presença inebriava cada canto. Passei o dedo pelo cursor e vi um de seus escritos inacabados. Certamente era recente. Seria ousadia ler sem sua permissão? Me deixei envolver, então, pelas palavras simples que pareciam escorregar pela máquina e embevecer o quarto de... Silêncio.

"Eu tive medo.
Olho para trás e ainda o vejo lá.
Ele não é mais meu, contudo ainda está presente.
Medo de não conseguir ser aquela pessoa bem sucedida, nos moldes da nossa sociedade vigente.
Medo do escuro, medo de não coordenar bem a fala
quando se falava em público.
Medo de nunca fazer nada para mudar a realidade, a desigualdade,
a violência.
Medo de não fazer parte. De não ser boa o suficiente. De ser sucessivas vezes abandonada.
Não era medo de ficar sozinha. Ser só por opção. Era o fantasma do abandono
que mentiu durante toda a vida até aqui, cortando braços e pernas, pensamento e vontades.
Fui refém. Eu sentia, mas não sabia o que era aquilo que me prendia.
Tentei salvar tantas vidas enquanto a minha estava esquecida e aniquilada.
Fiz brotar flores e fortaleci jardins. Fiz chover e amanheci dias onde a noite assustava. Anoiteci quando a luz envergonhava.
Eu era uma usina onde todo meu potencial energético alimentava vidas,
ruas, casas, histórias de amor, e conforto a meia luz para a lágrima que caia.
Até que um dia a seca assolou minhas nascentes. Como subsistir?
Comprei um espelho bem grande. Para me ver inteira. Olhar dentro dos meus olhos e me perguntar: o que foi que eu fiz com a minha vida? E esperar que alguém, dentro de mim, respondesse. Mas aí choveu. Os vidros embaçaram.
No silêncio perpétuo e transcendente ou ouvi a voz que me dizia, nada mais existia além de mim, da minha essência e da minha energia, desgastada.
'É tudo o que você tem, e é a partir disso que você terá que se reconstruir'.
Fiquei deitada no chão por horas. E pela primeira vez não ter nada era ter tudo.
Estou nua.
Não tenho medo.
Sei que em breve estarei vestindo um roupa nova.
Tendo a vida que nunca tive. Para além do que sonhei.
Pois tudo estava permeado de ensinamentos seculares, de mundos que eu não pertencia. Por isso eu tinha medo e fugia.
Eu sei que não vou passar fome, frio, nem necessidade alguma...

Simão, se você foi me dar boa noite, e viu que eu não estava, procurou vestígios de mim e chegou até aqui, saiba que fui andar pela noite. Sei que você me conhece e não vai se preocupar. Eu não fugi, não vou à Brasília, nem a Foz do Iguaçú. Neste momento eu não vou a nenhum lugar que não seja àquele que sempre me esperou. Enfim, eu cheguei."

Ela conhecia as coisas melhor do que imaginava. Sorri de manso, deixei o quarto e também fui passear. Eu sabia, aquele era o fim. O fim mais do que necessário para ela. Mas, um recomeço dos mais emocionantes de todas as minhas visitas a este mundo de existências confusas e belíssimas. Umas momentaneamente conturbadas, fragilizadas, doentes, outras, infelizmente, perdidas para sempre.

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