quinta-feira, 22 de maio de 2014

Deixando a roda.



Por que, eu me pergunto, ela ainda vive se cobrando tanto.
Olhando assim o dia, precisando ganhar dinheiro para os óculos novos,
mas não tem alegria, não tem ânimo para fazer o que precisa.
Li nos olhos dela um sentimento de inferioridade. Eu quis ir lá, esfregar, para talvez apagar, feito borracha, aquela mancha na íris.
Nada fiz, só fui cúmplice do seu momento de arrependimento ao constatar que
ainda estava no velho círculo vicioso de "alegria-distanciamento-lembrança-procura de proximidade-receio- vergonha-tentativa de esquecer".
Ela pensava que fazia as coisas de forma errada. Mas, não era forma errada, Era a forma dela em determinado momento.
Eu sei que ela entendia, e sofria porque repetia. E sofria querendo romper.
E chorava quando ficava contente, chorava quando tinha esperança, pois achava bonito. Cresceu sem ter todos esses sentimentos cultivados de verdade dentro de si.
Eu queria chorar com ela, por ela. Mas preferi sorrir. E ria enquanto ela chorava, ou quando ficava calada. Ou estranhava. Ria até ela não entender e rir também.
(...)
Ela sabia que era mentira, mas ainda acreditava. Não queria mais acreditar na mentira, então, inventava, bem devagarinho, a nova verdade. Mesmo que fosse chorando.


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