quarta-feira, 28 de maio de 2014

Aquela carta

Estava quente, mas o céu se cobria de nuvens cinzas, densas.
Como denso parecia seu coração, segurando aquela caneta na mão,
engolindo seco a cada minuto que passava.
Aquela folha branca que reluzia situações em sua lembrança.
E se chovesse, e se algo acontecesse e tudo mudasse?
E se não precisasse escrever? E se não estivessem tão longe?
E se a situação que vivia agora não se parecesse com tantas outras de antes?
Estava quente, mas quando a primeira gota de chuva correu pelo vidro da janela, onde seu olhar fixo se esqueceu, ela também choveu.

"Meu grande amor,

Tenho um punhal enferrujado cravado no peito.
Tenho vontade de sair correndo para o teu abraço.
Vontade de rasgar as roupas procurando, assim, rasgar os sentimentos
e deles me desfazer.
Gritar bem alto para que no grito, todos os fantasmas e
correntes saíssem de mim.
Queria que a água que me lava o corpo, pudesse limpar por dentro.
Sou uma mulher magoada.
Seu olhar eu já vi antes em outros olhos.
Suas atitudes eu já assisti em outros dias.
Por que você não fez nada por mim?
O que se poderia fazer...
O que nos distancia não é a geografia, mas a diferença das nossas almas.
Um dia me foi dito que você era o meu par ideal na existência.
Acreditando nisso, eu me entreguei e vivi experiências de todos os sabores.
Mas, por que me sinto tão amarga agora?
Engasgando com um sabor  que eu não sei entender?
A paz que nos unia foi mais fraca do que as línguas e o ódio alheio?
Do que éramos feitos para termos nos desfeito tão rapidamente?
Não consigo entender. E por não entender, sofro.
Não quero viver por aí doendo, sentindo que uma parte
de mim foi arrancada, com a minha permissão, e levada de mim,
e feito sabão, sendo esfregada no chão de cimento, sem perfumar ou alegrar.
Apenas sendo gasta por gastar.
Coração sendo esmagado, inseto sendo morto,
pisoteado diversas vezes na certeza da morte.
Estou sufocada.
Sufocada pelas lembranças.
Sufocada porque minhas veias estão abertas, minha vida num outdoor,
meu nome em letreiros numa avenida movimentada.
Quero guardar meu coração, quero cuidar do que sobrou.
Quero reconstruir quem eu sou.
Ser dona de cada parte de mim novamente, e nunca mais permitir que ninguém leve mais nada de mim.
Grande amor, não quero mais nada meu. O seu amor, o meu amor, o amor,
perdido está? A quem pertencerá amor vendaval, que sopra de uma forma a
arrancar suas raízes, varrendo todas as suas folhas e flores, deixando jardim morto, casa revolvida, mente atrapalhada."

Ela olha a janela, o ar quente agora é o que sai da sua boca entreaberta, e as nuvens são seus olhos embaçados, chovendo temporal.
Não terminaria a carta, não a enviaria. Não mais escreveria.
Queria esquecer todas as verdades, porque naquele momento
tudo parecia mentira, desventura, o nada.
(...)
Levantou da mesa, a vontade de morte lhe acompanhava silenciosamente.
Não queria mais aquela presença nem suas vozes.
Não queria mais se debater entre quem era e o que as suas emoções
lhe impulsionavam a ser.
Resolveu que, a partir daquele momento, mergulharia de vez na sua proposta diária de auto conhecimento.
Uma jornada que se segue sozinha.
Só. Sozinha. Solidão.
É por dentro, por fora não.
Tudo aquilo poderia ser bom? Do que resultaria?
Ela não sabia.
Todavia, decidiu ir, mesmo com todos os engasgos e tudo que ainda
não sabia como resolver.
Abriu a janela. E ao invés do mundo entrar, era ela que saía.
Era o mundo dela, o vento, a chuva, o calor... Imensidões que os olhos não alcançam.




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