"Meia luz
Ele fumava ao fundo da sala quase vazia
Olhava a fumaça e pensava nos erros que havia cometido,
Se podia ou não se arrepender como simples mortal,
Ou se orgulhar dos pecados, como afirmaram os grandes homens da história.
Ela entrou.
Vestido preto. Justo. Como se cada curva irregular
Levasse a um caminho diferente de delícias e mistérios.
Não saberia dizer como ela podia arrebatá-lo daquela maneira em momentos especiais.
Deixava-o anestesiado para qualquer outro perceber
Que não fosse o fascínio que expandia dela.
Parou a sua frente.
Palavra alguma não se ouviu.
Ele já não sabia se vivia ou alucinava.
Ela sentou-se inconvencionalmente no seu colo.
Queria estar bêbado.
Queria estar inconsciente para que seus nervos
Não o denunciassem.
Olhou nos olhos ressaqueados,
Segurou-lhe de leve o rosto
Beijou como se estivesse dançando,
Como se estivesse se despindo,
Como se estivesse a dizer-lhe que o queria ali,
Naquele momento, de qualquer jeito, sem pudores.
Queria eternizar-se entre suas pernas despidas,
Proibidas.
Estar entre elas, no meio delas, misturado ao corpo dela.
Tremia só de imaginá-la.
Meia Luz.
Ela parou na mesma posição,
Diante do seu olhar anoitecido,
Foi se retirando devagar como se escorregasse,
Languidamente, de uma pista no seu número de streep tease.
Pensara se ela não havia ensaiado aquilo
Exatamente para enlouquecê-lo
Exatamente para absorvê-lo inteiro, num só gole.
Ele não sabia.
Ela foi guiada pela música
Pela paixão que não achara mais lugar para se esconder
Pelo desejo que derramava pelas mãos, cabelos, boca, roupas,
Palavras, papéis e passado.
Encorajada pela liquefência de Baco.
Bastava aquele olhar dele...
E ela expandia-se erotizada em todos os âmbitos da sua feminilidade incontida."
Do conto Impulso premeditado.

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