Desta vez não.
Desta vez não dá.
Suportar o insuportável,
Sustentar sem ter ombros ou apoio.
Desta vez eu paro.
Desta vez sou eu.
Sentada no banco da praça quase vazia, me desespero a procurar uma razão, um lugar,
dentro ou fora de mim, para ficar, estar, desenvolver um sonho ou um plano, mas, nada...
Desta vez tudo acabou.
Eu preciso parar aqui e encarar a minha vida singular, a minha, MINHA.
Não considerar a moça que terminou a graduação, foi direto para o mestrado e agora é doutora
em Literatura e Diversidade, numa Universidade Federal de uma grande Capital.
Não comparar os meus dias com aquele conhecido que passou num concurso para fiscal,
e agora mora em Brasília, naquele estado armado com um lago artificial, e vai à praça onde Legião costumava tocar, onde construíram um monumento "Eduardo e Mônica".
Não olhar para os|as que conseguiram o que eu quis e não conquistei e me considerar pior,
nem observar os|as que se perderam no caminho e me enxergar melhor.
Desta vez é sem espelho, com as luzes acesas o rosto franco.
Cortar o cabelo, pintar mais os olhos ou usar carmim não vai diminuir a minha dor.
Não vai melhorar a minha concentração, não vai me devolver as mãos nem a habilidade
de reconstrução, apaziguar confrontos, entender silêncios.
Desta vez eu caminho só, confessando, finalmente, que o que eu queria mesmo
era ter alguém pegado a minha mão, entendendo meus olhos marejados e o meu lábio contraído.
Corredor iluminado, salas brancas... Um silêncio ensurdecedor aqui fora, conflitando com o caos
enlouquecedor aqui dentro.
Eu escolho viver, mesmo desconhecendo todo e qualquer passo ou descompasso futuro, presente oscilante,
passado passando do prazo.
Desta vez eu não paro.
Fecho os olhos evitando olhar para trás.
Desta vez é só razão, pois o coração, arrancaram-me.

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