segunda-feira, 1 de abril de 2013

A lágrima e a nódoa


     "Pôs-se a escrever para ele, pois queria externar seus sentimentos por aquele que a fazia voltar a tempos remotos de sua infância e trazer de volta o sonho adormecido:

'Quero fazer um conto, que conte todas as tuas belezas, tuas singularidades, tuas esquisitices, tuas mortes, nervuras. Um conto suave que te abrace, onde tu saibas que existe quem compreende a tua dor e a tua angústia, um conto de contador, onde as coisas podem ser maiores para rir e não tão grandes que façam chorar. Quero fazer um conto para nunca te esquecer, para que tuas letras sejam memórias nas minhas veias, e cada sorrir teu se junte ao som do meu coração. Fazer um conto para contar os dedos da tua mão, os fios do teu cabelo irregular, a imensidade de amar sem definições...'
  
      Guardou por dias o escrito, tão curto, tão significativo. Mas, Ele era muito mais... E na sua plenitude de ser, como encontraria palavras exatas para alcançar o universo de sensibilidade que se expandia dele? Como fazer algo para trazê-lo para perto dela, mais perto, bem próximo, e fazer com que ele nunca partisse? Nunca saísse da vida dela, do interior dela, do seu coração remendado, mosaico de dores e cores?
         Inevitável tentar controlar a vida. Soube tardiamente que só era responsável por suas escolhas e por si, nada poderia fazer com a vida das gentes. Tudo fora dela ocorria sem o seu menor consentimento. De repente, o que era amor se tornou amargura. Sem explicações, os sabores mudaram, os caminhos se desencontraram, o feitiço desandou, o fogo apagou e a luz desapareceu. Nódoa no alà de Oxalá.
         Juras de nunca mais. Coração dilacerado! Desconhecidos pela incerteza de suas vidas, ele e ela não passavam, agora, de meros estranhos, furtivamente e sorrateiramente íntimos. Mentindo para suas histórias entrelaçadas, fingindo para procurar esquecer a falta que a uma fazia para o outro, que o um fazia para a outra,
      Como refazer uma ponte para superar a ruptura de uma relação? Palavras ditas para ferir sem precedentes do quanto magoariam, do quanto poderiam devastar o que um dia tinha sido terra fértil e jardim florido: rosas e cravos, lágrimas e paixão. Caminhos abertos para o mais secreto de um coração.
      Carinho no cabelo, colo de mãe, incertezas... Sobrenatural. Saudade da grandeza dele, das suas mãos imensas, seus sorriso frouxo, sua fala em disparada! Saudade. Do jeito como ela sabia das coisas, da sua sensibilidade, dos seus cabelos engraçados e de suas palavras de conforto.
Julgamentos fizeram, ela e ele, réus onde não havia vítimas, nem juiz para avaliar atitudes repentinas, movidas pelo não querer sentir, pelo torto e incompreendido desejo de não estarem unidos por qualquer força maior. Eu não o quero! Eu não a quero! Não é ele! Não é ela! Nós não somos!
         Ele preferia se transvestir de personagens fictícios a ser apenas um rapaz, ser ele mesmo, com seus encantos que fluíam de si feito água de cachoeira, matando sedes e fazendo vidas sobreviverem de fascínio e beleza. Mata fechada, segredo guardado.
        Ela preferia acreditar que sozinha era mais forte, era livre. Que poderia deixar não somente coisas para traz, como também pessoas. Nunca quisera o abandono, mas se viu numa encruzilhada onde era escolher entre viver ou zumbizar feito assombração que não conseguiu libertação para sua alma cansada. Era névoa, estrelas do céu à noite, era a beleza onde nada se via, transformava pó em ouro. Ela e seus elementos.
        Para todos os dias, ele e ela, separados pela realidade escolhida. Embora, subconscientemente, os caminhos e pensamentos estivessem emaranhados, em outros planos, invisíveis aos olhos. Cravados na lembrança para o eternamente."



Conto "A lágrima e a nódoa"

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