sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

"Ia fazer um ano.
Lembrava olhando a fumaça, que tinha formas
surreais, do incenso de sândalo.
O perfume com cheiro de gulodice, a roupa levemente atraente,
a melhor lingerie, maquiagem realçando o olhar.
Na bolsa levava uma roupa e o segredo.
Não saberia dizer porque tinha tomado aquela decisão.
Tinha raiva, tinha medo, estivera sufocada por ter que matar
mais um vez o sentimento que havia plantado numa manhã
cheia de sol e novidade.
Chegou cedo, conversava, risonha, sobre assuntos esquecíveis.
Tinha mais gente na casa. Não saberia se iria acontecer realmente naquela noite.
E pensava, seria sua última oportunidade.
Comeram alguma coisa comprada por outrem, beberam suco do dia
passado.
Estavam em quatro, falavam sobre dias infrutíferos.
Ele olhava para ela, com seu olhar sempre de interrogação.
Ela olhava querendo dizer coisas que ainda não sabia.
Tinha falado ao chegar: Eu trouxe o que prometi!
Mas ele não acreditava, apesar de saber que era verdade.
Ficaram a três. Veio o sono. Ficaram a dois.
Deitados na cama, no silêncio, a luz acesa. Densidade.
Se entre olharam com palavras impronunciáveis.
Ele pediu: Apaga a luz.
Ela se levantou devagar, procurou, obedeceu e se deitou, calada.
Sentiu aquela respiração quente. Desejada.
Ele apertava-a com força, abraçando seu corpo inicial, seu medo maior.
Ela não sabia. Mil pensamentos e o coração queria sair, ser vomitado.
Ele sabia. E fez. Realizando. Agressivamente, o ritual cósmico.
Cada passo era dado por ele, cada palavra dita secamente,
mesmo que tivesse o cuidado de ter cuidado com ela.
Terminara tão logo quanto começou.
Ela queria ter feito tudo por ele, mas não sabia. Se sentiu pela metade. Quebrada.
Ele só quis dormir.
Ela susurrou segredos em seu universo eclipsal.
Ele suspirou e se levantou.
Voltou do banho e dormiu.
Ela se levantou devagar, passos leves pela casa escura.
Limpa, vestiu a camisa suja dele.
Queria abraçá-lo. Fazer coisas que o seu sentimento pedia.
Mas não achou lugar. Encolheu-se no lado da cama e
ficou a madrugada toda olhando as telhas da casa velha
e imaginando como seria tudo agora. Repensando a vida inteira.
Tinha amanhecido. O despertador tocara. Ele coçou a cabeça dela.
Ela pediu para se abraçarem. Ficaram poucos instantes.
E mesmo depois de um ano ainda estava abraçada a ele.
Levantaram se, arrumaram se e saíram.
Ele viajara na mesma manhã. Ela passara dias sem saber.
Eram amigos. Apenas amigos. Para os dias todos, amigos.
E aquilo se super dimensionava nela. Quisera não existir
para não sentir toda confusão que lhe arrebatara todos os sentidos.
Passou por tantas coisas até se desprender daqueles cabelos
daquela barba, aquele cheiro, aquele olhar...
E tudo na sua vida foram possibilidades abortadas
Pensava se realmente serviria para o amor
E aquilo lhe corroía, lhe maltratava.
Ela superava todas as tentativas vãs, não
lhe davam oportunidade, perdia todas as chances.
Sabia que o mundo não era justo, que os sofrimentos eram vários,
que apesar de tanta evolução, o ser humano ainda estava preso
aos valores pré-históricos, geneticamente herdados.
Tinha raiva. Raiva até a fraqueza. Até a tristeza.
Ia fazer um ano... e ainda não saberia dizer o porque...
mas a sua vida mudara completamente.

Trecho do livro "A noite e seus amanheceres"



De mansinho...

Os teus olhos
tua boca
teus cabelos negros
teu jeito de falar
teu jeito de calar

Tudo teu foi se desenhando em mim

E eu fujo de querer-te
amar-te
esperar-te
perder-te

Porque, eu sei, se voltar a olhar
dentro dos teus olhos, de repente
Volto a te absolver, te desejar

Mostruosamente

Assim, de leve...

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