terça-feira, 6 de setembro de 2022

As folhas da vida nas pétalas da rosa

Portas trancadas, janelas fechadas, campainha desligada
Não direi que não receberei ninguém hoje
não recebo há muito tempo
Estou cansada de estar cansada e por todo lado
que me viro, por toda leitura que me debruço, a familiaridade das coisas
me causam incômodos, tudo se parece tão igual
ao passo que leio que são fantásticas
Não há ninguém à porta, à caminho
Ninguém à cavalo ou de moto
Ninguém caminha sozinho por entre a movimentação do meio-dia
e pensa em ajudar a resgatar outro alguém
Já te contei sobre quantas vezes quis, precisei, implorei para
que surgisse alguém para me salvar
Não da loucura, mas do abandono
Desse que se vive quando se sofre demais
e a angústia tem sons altos, uma verdadeira produção artística
sonorizações e equalização que nenhum megashow pode reproduzir
Sento num canto qualquer dessa casa tão vazia e solitária
quanto meu corpo, tanto quanto eu
Talvez a casa tenha deixado de se tornar a minha prisão
para ser espelho do que tenho sido
Perceber isso me assusta
Tapo os ouvidos para não ouvir a voz do medo
O medo cega, tem fome, desejo, vaidade e ganância.
Te contei que decidi escrever um livro enfim
Não sei como será, sobre o que será
Só não queria escrever cartas e falar sobre dor
Mas a vida também não é muito isso?
A roseira se despetalando no quintal me lembra
que posso falar de amor
Muito amor
Intensamente
Sutilmente
Arrebatadoramente
Eu sinto que vou tentar
Apesar de estar também cansada de tentar
Tentar ficar bem, tentar melhorar, tentar viver, tentar morrer, tentar brilhar
tentar luzir, proteger, aparecer, ser
Hoje não quero me esconder
Não vou beber, não vou comer demais e vomitar
Não tomarei drogas para dormir
Por muito tempo eu pensei que para estar com alguém
eu precisaria ter saúde, ter a vida arrumada
feito essa casa estranha, feito uma criança bem vestida e penteada
numa festa para outras mãe e pais elogiarem, não exatamente porque
ela gostaria de estar do jeito que estaria
Antes os pés descalços, os sorrisos ecoando pela rua,
a alegria causa muito suor...
Eu disse que estava aberta para o amor
mas nunca estive...
É preciso ter uma casa própria, ainda que alugada
É preciso ter sucesso, ter emprego,
ser gente diante daqueles com prazer de destituir as gentes de suas humanidades
Eu me fechei, me tranquei, me feri, me violentei até me esquecer
Agora, olhando as pétalas da rosa que se desfaz no chão
penso num rito, num banho para atrair o amor
e essa frase me pareceu algo como se o amor fosse um bicho
a ser atraído e preso, pego e domesticado ou até mesmo comido
devorado como a fome do medo, a fome do abandono, a fome de si, a fome de se livrar da dor 
Estou aberta para o amor
assim, Inteira por fora, remendada suscetivamente por dentro
alinhavada com linha encantada o tecido que me constitui
para que eu não me desfaça como fumaça para sempre, em qualquer esquina de mim
em qualquer esquina do mundo
Como vou abrir as janelas? Destrancar as portas?
Sair dessa escuridão infinita em que caí e fiquei presa?
Como era mesmo a história que eu contava?
"Nunca mais quero escrever para ninguém"
Hoje repito "Nunca mais deixarei que ninguém me impeça de escrever"


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