segunda-feira, 29 de julho de 2019

Forças de ensonhar

Este blog deveria se chamar "Diário de uma suicida". Cafona e clichê, eu sei, mas não sei como é viver sem desejar morrer. Não ter querido partir desde o momento em que me percebi existindo. As tardes iam se perdendo no horizonte e uma criancinha olhava o céu e se perguntava: Quem ou o quê sou eu? De onde eu vim? Por quê estou aqui? Depois do céu o que há? Depois disso tudo?
E todas as noites dormia em seu travesseiro de oceano desejando não acordar.
Nunca houve paz nem lugar onde eu me sentisse parte. Então continuar começou a pesar muito mais do que pesam os maiores pesos físicos.
Adentrou sua própria luz e escuridão rasgando os véus, mergulhou num plano desconhecido para acabar-se. E fez de tudo para se destruir.
Os cortes de todas as profundidades. Os remédios e venenos. O corte na carótida, o sono de madrugada do outro lado da ponte.
As incontáveis tentativas inúteis de morrer.
Os cortes nunca foram para aparecer,  era o grito calado que o corpo encontrava para diminuir a dor de viver que me engolia feito qualquer monstro terrível, faminto e insaciável .
Pior do que viver doente, lutar pela vida é  não conseguir morrer.
A depressão.
O transtorno do pânico.
O hipotireoidismo em seus níveis mais agudos.
Nem o câncer.
A endometriose.
A iminência da demência.
A literatura minha morfina.
A arte. Dançar com a loucura para aliviar
O desespero de viver.
O sonho tem gosto doce?
Se eu conseguisse ao menos perder
a sanidade eu sorriria. E brincaria com limites invisíveis.
Mas eu só consigo chorar.
Sentir muito por saber. E não suportar mais sentir.
Desenhos atuais retratam peitos, corações, pulmões, cabeças florescendo,  explodindo em cores, flores, pássaros... pulmões deste mundo onde pessoas poderosas destroem tudo por dinheiro e pessoas esperançosas fazem filmes, compõe músicas, fazem cinema com ensinamentos de séculos e com a lembrança do quão importante são as coisas simples.
Se perguntassem qual é o meu maior sonho?
Ver meu sobrinho crescer saudável e com caráter, oportunidade?
Ver minha irmã voltar a dançar?
Minha amiga ter o emprego melhor e se tornar juíza?
Minha mãe ter o coração leve e morar na praia?
Meu amigo não precisar se sentir culpado por amar outro homem, ser livre do peso dos conceitos tortos de uma família assombrada?
Conseguir ter saúde para exercer minha profissão? Ser a melhor professora de literatura que eu puder ser? Ter o suficiente, comer, beber, ter casa, saúde e segurança para "o meu povo"?
Por favor, eu só quero dormir e nunca mais acordar.
E alguma força que viva em mim povoar a terra de qualquer coisa indizível e inexplicável,  acontecimentos cósmicos.
Eu já estou muito cansada para tentar morrer mais uma vez.
Então, eu só quero dormir e não acordar.
(...)
Mudei a arrumação do meu quarto.
A lâmpada azul com a luminária branca parece uma lua cheia. E eu penso isso e lembro do meu amigo abstrato, que me responsabilizou por todas as desgraças da sua vida em 2 meses de amizade. Eu não disse nada de errado, foi só porque era eu. Pensei em lhe mostrar a música de Sade "Flower of the universe".
Quem seria a flor, eu ou ele?
Talvez quem chora todas às noites
Ele pode ter sido o Príncipe Rosáceo.
Mas são das minhas veias que nascem as rosas
Tem a cor do meu sangue.
E alguém me amou tanto que ligou
Meu coração com a de alguma estrela.
Se eu voltasse de onde eu vim?
Mas... onde fica esse lugar?
As respostas não existem. Eu não estou só
Apesar de me sentir profundamente sozinha.
Nada de extraordinário aconteceu.
Forças eclipsam em mim, se arco-irizam...
Danço com a loucura. Não há respostas. Ou...

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