terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O sopro de um toque

Era manhã de sol. Te vi acenando do outro lado da rua.
Músicas cantavam mentalmente teus gestos.
E a tua presença
na terra,
no dia,
na minha vida já não tinha aquele peso antigo.
Não havia paixão. Intensidade, urgência.
Meu sorriso escapou, sorrateiro, como um suspiro.
Eu soube que os dias ruins haviam ficado para traz.
Pessoas, situações, promessas, amizades possíveis, confiança frágil.
Acenei de volta. Você sorriu e seguimos caminhos diferentes.
Ela me pergunta como eu me sinto.
Não sei dizer, precisar emoções, humor.
Talvez se eu dissesse que queria chorar, gritar em todas as esquinas,
tomar banho de chuva, levar um choque,
dormir e não mais acordar. Ter esperança.
Mas, eu não sinto nada.
Não toco, não falo, não experimento o vazio.
Apenas o nada.
Então, caminho pelas ruas entorpecida.
Volto para casa e me deito.
Às vezes eu queria uma vida diferente. Possibilidade.
Outras, eu só queria mesmo evanescer, não ser.
Sem consciência, necessidade, matéria, memória.


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