Dedos para que toquem o invisível, apalpem a abstração de meus pensamentos arruinados pela dor de décadas a me cegar os olhos e a me comprometer os sentidos. Sou toda tato. Quero pegar a dor, torná-la substancial o suficiente... e arrancá-la, ter os dedos ensanguentados, as mãos rasgadas pelos espinhos amolados das raízes da tormenta.
Preciso me concentrar, ser aquilo que ainda não sou, contudo, sinto que posso ser. Tudo aquilo que sei que ainda não sou pois a inquietação da memória me tira de todo rumo certo, de toda linha reta, dos meus pontos exatos de orgasmos, para além do corpo, para além da consciência. Ao passo que sou toda sentidos, minha pele, meu coração se estende por toda matéria que me constitui. Só é possível encontrar o caminho por zigue-zagues.
Confusamente adentro os tormentos da noite. Estou presa dentro de mim mesma, estou gritando, me debatendo. Quem pode ver ou ouvir? Minha vertigem, minha vontade de vomitar, meu desespero, minha necessidade de acordar? Aonde está? O inimigo ou inimiga de mim? Histórias de fé e maldição me perseguem. Quero me livrar das cordas e correntes da crença bruta que engoliu a minha vida ou tudo que eu acreditava ser realidade.
Quero romper com esse círculo, sair da roda. Sumir pela estrada desconhecida, morrer sem remédio, enfrentar o tédio de não participar de um mundo que nunca fui parte. Não quero mais obedecer, abaixar a cabeça, ceder.
Preciso me concentrar, mas tudo é confusão. Inquietações profundas me tiram esperanças remotas de sono e perda de memória. Minha mente, meu campo de batalha. Ainda que eu seja totalmente destruída, eu sairei dessa trincheira de ilusão e cruzarei a fronteira.

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