quarta-feira, 2 de março de 2016

Volta M.

Já não posso dizer até quando suportarei toda essa dor que veio se instalar no meu peito, pregada feito selo. A rondar os meus pensamentos como uma fera, a crescer em mim como um câncer. Já não sei conversar, não sei amar, não sei me revoltar, dizer verdades ou mentira, tudo me parece tão inútil e doloroso. Não tenho ânimo, minhas paixões adormeceram ou congelaram feito estátuas de pedra. Tudo que desejo é dormir para não sentir. E tudo que sinto é dor e desespero. Quero rasgar o peito, quero gritar um grito medonho onde todos os sons do mundo se calem diante do assombro da vida. 
Eu não quero mais viver assim, eu tentei. Sangrei, me revirei, estive ao avesso... Mas não foi o suficiente. Me perdoe. Eu não sei como vai ser. Mas, não suporto mais...
Sinto por todos os livros que não lerei, as danças que jamais dançarei novamente, as músicas que não ouvirei, as animações, as cores, os sorrisos, os aromas, sabores... Não verei meu sobrinho crescer, minha amiga ser feliz, escandalosamente feliz. Meus amigos envelhecerem. Eu sinto muito por não suportar a vida. (...) Provavelmente não seja a vida que incomoda, essa mágica que ninguém conseguiu inventar. É a doença sem nome que vestiu a roupa da vida e me envolveu inteira, obscurecendo todos os meus sentidos. Eu queria que ela voltasse, queria que me dissesse: pode ser fraca, sincera, eu sei que está doendo muito, mas juntas poderemos construir uma maneira de continuar. Ela foi embora, e por mais que eu guarde, como a um tesouro valioso as suas palavras, são como cordas a se romper diante do abismo, com as quais eu me seguro para não cair. E o sobrenatural, a teoria Quântica, os meteoros, as invenções, as coisas simples e banais que fazem a terra se renovar, o sexo, a poesia, o humor, o Amor...
Vou caminhando nos meus últimos dias como se pedaços de mim fossem caindo pelo caminho. Corpo invisível. A vida é extremamente complexa dentro desses dogmas, noções, configurações que criamos enquanto seres humanos e sociais.
Eu já não posso garantir até quando. Eu não o abraçarei novamente. Ele jamais me amará. Nunca mais verei os seus olhos profundos nem mergulharei na sua alma. Não terei escrito meus livros, lutado por liberdade, por igualdade. Minha casa com jardim não existirá. Aquele jipe amarelo... Meu emprego de salvar vidas de todas as maneiras possíveis de se salvar alguém... O coração dela se partirá para sempre.
E em todos os escritos meus, por tantos lugares, hão de falar por mim o que for necessário ouvir. Minha história em outras vidas, as lembranças criando jardins e dissipando a seca. E eu voltarei a ser poeira. E o depois ninguém sabe.
Parto como quem vai ali e volta já, de forma contida, o abraço nela, o carinho nele, o beijo e o meu melhor sorriso.



Meu Muito Querido:
Tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor.
Deste-me a maior felicidade possível. Fostes em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou destruindo a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler.
O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom.
Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida.
Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.
V.”

Carta deixada por Virgínia Woolf ao seu marido Leonard.

Nenhum comentário: