sábado, 23 de maio de 2015

Uma prece sem pressa

Ainda sinto nas minhas carnes a lembrança da dor de estar viva.
Eu não quis morrer, só que aquela dor passasse e levasse com ela a lembrança da velha vida.
Os dias escorrendo entre os dedos dela, fugindo ao olhar investigador dele,
suprimindo os sonhos que já há muito secos restavam no coração.
O que é isso que vivo? Todas as crenças que já experimentei...
E essa realidade arbitrária e inflexível que eu não evoquei?
A dor faz o corpo aprender e desaprender as coisas.
Repito para mim mesma ou para o vento, o tempo, que não estou confusa
só estou observando os dias com esse vazio dentro de mim.
Um não estar em mim mesma ou um estar fora de mim.
Nada é "exatamente isso", tudo é "não é bem assim", nada é exato, nítido e claro.
Como o sorriso que ainda carrego na memória, o som da voz macia solta no tempo,
cabelos, e presença como a luz entre folhas de árvores num dia fresco de primavera.
Sinto que tudo anda meio empoeirado, vazio de significados.
Preciso terminar as coisas. Melhor: Preciso começar as coisas. Preciso dar início a uma caminhada.
Onde ela termina pouco importa. Eu só quero começar e continuar. E caminhar.
A palavra não é mais importante. Creio que a Linguagem seja.
Uma nova linguagem, uma outra linguagem para que eu possa me expressar.
Como alguém que perde a memória e volta para um mundo que não reconhece.
Eu peço, devagarinho, por favor, por amor... Razões para viver. Ainda que sejam sem explicação.

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