sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Esquina

Passou tantos dias sozinho. E do alto da sua solidão via todos os passos, todas a gentes, as dores da gentes, os sorrisos das gentes. Via igualdade, cumplicidade, amor, abnegação. Via também discriminação, leviandade, preconceitos, violência, desigualdade e a maldade que mata até os sonhos mais ingênuos de pequenas purezas e os musgos das pedras úmidas do caminho.
O humano fica insensível com o tempo, a Natureza sempre sente.
Não fora abandonado, apenas foi mudando seu modo de ver a vida, de andar pelas estradas, seu jeito de olhar. Consequentemente, muitos divergiram.
E no seu aprendizado diário, buscava ser mais forte sendo mais simples, estando ligado a valores que o fizessem acreditar que era possível subsistir numa realidade em que tudo havia se acostumado a ser negado, amontoado de mentiras e ilusão. Caminhava sobre as pequenas indiferenças, os grandes esquecimentos. Errando, acertando...
Quem lhe diria aquela palavra de conforto? Mesmo ele se preocupando apenas em estar ciente do seu caminhar, esperava que em algum momento a maciez de um contato, uma fala, algo que lhe lembrasse ou lhe trouxesse tudo que o seu costume de ser havia levado embora.
E num dia qualquer, esbarrou num par de olhos grandes e curiosos, que ao invés de pedir desculpas, sorriu. E como se começasse a enxergar, depois de anos de cegueira, tudo se iluminou. Viu cores, cores, cores! Eram formas, sons, possibilidades.
Se viu, gente, de carne, ossos, moléculas e paixão. Percebeu que muitas vezes havia se enganado, retrocedido historicamente, amortecido sentimentalmente.
Sentia que, só se conhece alguém quando se ouve o seu silêncio, aprende seus olhares, reconhece seu modo de caminhar, quando pode contemplar o sono, a maior de todas as vulnerabilidades.
Era tão melhor encontrar. Por que as pessoas insistiam em continuar perdidas entre tantas coisas confusas e difusas do que o seu universo interior realmente era constituído? Deve ser por isso que dizem que quando se cresce, se perde o contato com o divino, ou como gostava mais de entender, com a transcendências das coisas intangíveis.


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