terça-feira, 25 de novembro de 2014

Choques cerebrais

Quem eu era não sou mais. É o mesmo nome, mas a pessoa não.
Todos e todas aqueles|aquelas que vejo não reconheço.
Não quero receber visitas.
Não me façam promessas.
Não deixem essas palavras aqui, incomodando a minha cabeça.
Tenho raiva dos nomes, dos rostos, dos mesmos discursos e lembranças.
Eu não sou aquela pessoa e não vou voltar a ser, não quero mais ouvir lamentações.
E nas raras vezes em que saio a rua, belezas desabrocham dos meus sapatos,
das minhas orelhas, ouço a minha voz e não a reconheço, e pareço que estou vivendo um grande teatro.

Na hora do grito,
na hora do choro,
na hora da confusão,
na hora de todas aquelas vozes repetitivas na cabeça,
naquela hora, é só solidão.

Mesmo que seja tudo antiguidade.
Esqueça meu nome, meu endereço, aquele jeito de sorrir que eu tinha.

Eu esquecerei os piores sexos, os beijos mais insossos,
os abraços fantasmagóricos, os olhares vazios, os insultos inúteis.
E principalmente, as promessas.
Poucas coisas na existência são tão triste quanto uma promessa não cumprida.
Não a faça. Não pronuncie. Segura tua língua. Esquecesse os desejos. Desenlaças as palavras que te brotam da boca como se não fossem significar nada.

E isso o que eu sinto? É raiva? É ódio? Revolta?
É o processo de esquecimento. É a abstinência dos antidepressivos.
Choques cerebrais. É o não medo.
É a tristeza por reconhecer que certas palavras, conceitos, ditos em momentos
de nervura se tornaram uma prisão no teu mundo neural.

Eu enfeito meu quarto, pinto minhas unhas, meus cabelos crescem.
Adoro aromas, a terra, as flores, a textura de cada coisa,
deito no chão da biblioteca e sorrio, converso com desconhecidos e desconhecidas e me sinto em casa. Numa casa que nunca tive.
Sinto todas as gentes. Meu coração cresce, acelera. Perco o ar.
Navego no esquecimento de todas as coisas.


2 comentários:

Drika L.S. disse...

Clarice Lispector disse: "Sou sempre eu mesma, mas não serei a mesma para sempre". Você é um ser humano iluminado e iluminador. Que bom compartilhar contigo esta existência ;)

allinne s. disse...

Drika <3

Que visita mais gostosa e ilustre. Passos e palavras a polinizar a terra que eu preparei para as flores novas, que crescerão em breve. Obrigada por todo carinho e pelo pensamento bom!
Nesses momentos pequenos que se sente o sabor doce de existir e acreditar para continuar vivendo.
Um beijo! :3