sábado, 15 de novembro de 2014

Da mudança do tempo

Deitada no chão do banheiro ela aperta os olhos enquanto a água cai quente em seu corpo dolorido.
Ninguém irá bater à porta, não atenderá o telefone, não responderá se lhe chamarem pelo nome.
Fica a imaginar reflexões sobre merecimento. O que ela teria feito para sofrer assim? Tantas explicações, filosofia, religião, visões espirituais, perspectivas científicas, poéticas, radicais, crendices, senso comum rapidamente espalhado caso você deixe aberto uma fresta da sua vida.
Vai envelhecer? Enlouquecer antes por ver tantos sentimentos escondidos nos olhares, toda uma vida apenas num toque. Às vezes ela se assusta com essa... Sensibilidade? Anomalia? Imaginação?
E todas as vidas vão ficando um pouco nela. Amanhã ela acordará e pensará no rapaz que se sente muito só, mas vive espalhando sorriso e força. Na moça forte, conquistadora, que no fundo se sente extremamente confusa e insegura. Vai ver ampliado nos olhos da mãe o desejo que a morte não leve tão cedo a sua menina, rezando e desejando mais do que qualquer coisa que ela sobreviva.
(...)
Senta no chão do banheiro. Lava os cabelos, ensaboa o corpo, esfrega as unhas dos pés e das mãos.
Lá fora trovões e raios e vozes para desligarem aparelhos elétricos.
Este é o momento para sua solidão, pensa, para o silêncio da sua alma, para abraços de verdade, para desenvolver seus dons.
Como é que faz? Tem tanto tempo... Ficar "só" para a imaginação poder fluir, inventar coisas, não ter medo de ouvir o vento, o tempo, o sussurrar da noite,  os dizeres desgovernados do dia. As realidades a confessarem durezas para além das pedrinhas do quintal.
"Tia, quê que é câncer?" "É quando alguma parte do corpo fica dodói por causa de um carocinho que não deveria estar lá."
Tia, quê que é depressão? Ela silencia por instantes. "É quando uma pessoa fica muito triste e não sabe como desistristecer sozinha. (...) Mas, minha lindinha, por que estas perguntas?" "Eu ouvi o vovô dizer que você ia embora por causa dessas coisas, e que era tudo culpa, tudo culpa..." "Culpa de quem, meu bem?" "Eu não sei, mamãe me mandou sair para brincar e eu não ouvi mais nada... Você vai embora, tia?" A menininha abaixa os olhos e o seu lábio inferior treme. "Não, minha lindinha, titia vai estar aqui. O vovô só está triste, igual quando você quer brincar e a mamãe não deixa porque já é hora de dormir".
(...)
Quando ela deita na cama, à noite, ela se imagina caminhando pelas ruas, sozinha. A vida não é nada como ela imaginou. Todavia, nada julga. Hoje, só busca compreender.
Ainda tem vontade de ter um amor, de dançar músicas românticas, de cultivar flores e plantas para remédio e para perfumar. Ainda quer mergulhar, rolar na grama, na areia da praia, no tapete da sala. Tomar banho de sol e de chuva, jogar bola com as crianças na rua, encontrar uns óculos que lhe caia bem, ainda quer escrever seus livros, tocar seu violão e sonhar com uma revolução... diferente.
O chuveiro é a chuva que o dia lhe negou. A cama é o colo que não tem mais.

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