terça-feira, 23 de setembro de 2014

Órbita

Por muito tempo ela ficou ali sentada em cima daquelas caixas lacradas,
olhando através das paredes de vidro.
Anoitecia e amanhecia e ela ali. Havia o jardim lá fora, havia a vida lá fora.
Mas o olhar estava perdido.
Olhava para dentro? Para o passado, a dor, as dificuldades, pensamentos fixos?
No que ela pensava?
O que decidiria?
Muita gente conheceu. Diversas realidades e crenças.
Corações distantes, mas a fala era íntima.
Voltou a pergunta inicial: "Quem sou eu?"
Mas fazer-se ou refazer-se, dar nomes as coisas e a si já não importava.
Manter pessoas ao seu lado ou ao alcance do abraço na saudade.
A insistência de não permitir que seu intelecto sucumbisse as pressões sociais, culturais, os apelos de seu tempo.
Qual era o seu tempo? Ela não distinguia.
Nunca tivera padrões. Sempre teve dificuldade com escolhas.
Queria liberdade em todos os seus significados e possibilidades de realização.
Queria independência total de tudo, sobre tudo.
E imaginar que nada a poderia limitar, segurar, definir, finitude... Era como boiar em águas calmas, profundas.
Naquele seu pensamento era o nada. Todas as coisas sem definições.
Era a calma.
Depois de semanas, ela se levantou.
Ficou parada ali, parecia que ia explodir... Era o que seu olhar revelava.
Jogou todas as caixas contra as paredes, grandes e pequenas, pesadas e leves.
Enquanto as paredes se quebravam em mil pedacinhos, ela num choro convulsivo, urrava, como se estivesse se rasgando por dentro.
Quando não restou mais nenhuma caixa ela parou, aturdida e silenciosa.
E o seu choro sorria.
Tirou as roupas que vestia, os brincos que usava, o colar que gostava, os sapatos vermelhos da sorte.
Se vestiu de grama, terra, flores no seu cabelo curto, que se assemelhavam ao seu coração, curto e repicado, sem forma ainda.
Saiu andando. Sem portões, muros, grades, asfalto ou medo.
O rumo? Órbita? Certezas?

Lancem todas as interrogações. Nunca fora exata. E a sua doença foi a ideia de que deveria vestir a roupa sob medida, ter o comportamento usual adequado. Rasgaram-se os testamentos imaginários. Os contratos sociais simbólicos.
Tudo tinha vários lados, modos de ver, entender. Todas as realidades são possíveis. Seu sorriso revelava mistérios. E do centro do seu ser, uma energia potencializadora crescia vertiginosamente.
Para onde ela vai? O fato de saber que ela foi já me acrescenta luz no dia e me satisfaz. De resposta já não necessito.




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