segunda-feira, 14 de julho de 2014

Sapateado



 
Caso eu escreva ficcionalmente, com personagens inventados e cenários imaginados, ou escreva a história como foi, mudando nomes e ruas, cidades e palavras, no final não seria somente para explicar aquilo que não foi dito quando a palavra saltava pela boca, mas se aparou com a mão e a colocou novamente dentro dos limites do signo?
Por que sempre a necessidade de se explicar? Escreveu uma palavra incorreta? Envia o texto mil vezes para se desculpar, pois não pode errar. Ouviu algo que parecia subestimar a sua inteligência e caráter, é preciso esclarecer, torna-se como o outro/a, o mesmo/a, igual. Seria para evitar a competição ou apenas vaidade?
Deixe que pensem. Não estando presa nos pensamentos de outra pessoa posso ser somente eu mesma, ou continuar vivendo como fantasma na própria vida.

Alma menina, que sapateia na vida, um pé aqui outro lá, sem assumir a sua postura firme na dança da vida. Cambaleia na hora de virar.
Ainda não aprendeu a dar voltas em volta de si mesma.
Contornar a parceria e para diante do olhar.
E agora, como é que vai ficar? Outro ritmo, um figurino que combine mais com seus pés pequenos e seus braços longos.
Seu corpo. Nenhum outro igual. Vai se olhar no espelho e se reconhecer e aprender a dançar com corpo que tem?
Sonhar com outra realidade seria injustiça com a tua natureza, que se contorce inteira para o teu olhar brilhar quando a si mesma se mirar.
Adoece de tanto pensar. Nem o sono veio mais lhe enfeitiçar.
Aprendeu a se livrar do pensamento que, como um laço, prende os pés. Mas é preciso ter paciência para ouvir o silêncio e alcançar a paz.
Tudo dela, dentro dela. O remédio é ela. Em essência.
Não seguirá nenhum mestre. Nenhum guru. Nem uma bruxa velha e experiente.
Abandonou a teimosia.
Se soltou dos braços que a seguravam na dança. Lançando-se num solo.
Ensaia.
Para um dia dançar todas a danças, em par ou singular, tudo harmoniosamente, sem cair ou esbarrar. No tempo certo da música.

Abandonou a necessidade de responder, de ir junto, de provar.
Escreve porque antes de ser, era letra, poesia.
Escreve para continuar vivendo.
E as palavras continuando nela, continuavam ela.

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