Em frente ao espelho, olhos vermelhos, rosto molhado.
A boca nada diz, são os olhos que falam.
Briguei a vida inteira comigo mesma. Com a voz na minha cabeça
que dizia incessantemente o que eu era e o que não era.
Do que precisava e do que jamais conseguiria.
Enlouquecia?
Era o Ego voraz, que comia toda a minha imaginação, meus sonhos, minha determinação, minha vontade de levantar da cama, minha saúde, meu olhar e ouvidos atentos para o outro a outra e sua necessidade de abrigo.
Meus fantasmas do passado, do presente, meu desapropriador de futuro.
O Ego.
Eu nunca estive em cima do muro. Eu ia e voltava procurando me libertar
das vozes, da voz. E todos os meus sentidos comprometidos, me impedia de perceber ilusões e as diversas verdades.
Era tudo inimizade.
Buscando uma verdade torta, eu me identifiquei com coisas, e perdi a minha essência, meu eu maior, despido do ego e das construções imagéticas ao longo dos dias que me fizeram história, dias breves ou longos demais para a minha dor, tua dor, nossa dor adormecida.
Eu me perdi.
Olhei no espelho e um lampejo de consciência me faz pairar num universo paralelo, onde percebi que sou livre, sempre fui. Era o ego que mentia, com a sua voz tão estrondosa, como a de um Deus a guiar minha vida.
Eu fantoche fui, assombrada de raiva e temor.
E o pânico era: Cala essa voz! É mentira! Me deixa em paz!
Me contorcia e me debatia. Tudo o que eu queria era ficar tão cansada que não conseguisse pensar. Tomava altas doses de remédio. A bula dizia que iria animar, mas o que eu queria mesmo era morrer. Aí todas as vozes se calariam.
E nesse processo, todo mundo sabia o que era melhor para mim.
Todos sabiam o que eu tinha, quem eu me tornara: "É mania." "Falta do que fazer." "É uma descompensada, descontrolada!"
Eu só pensava: eu não quero errar, não quero magoar. Quero fazer tudo direito. Mas o que era isso? O que era eu?
Diante dos olhos no espelho eu lembrei da melhor parte da vida.
Quando é que você se sentia feliz?
Lendo. Mergulhando nas histórias, ilustrações. No que ficava por dizer dos textos e das imagens. A imaginação era o meu plano de fuga. Minha realização. Minha casa, meu sono, minha cama quente, meu abrigo. Minhas cores e minhas asas. Meus instrumentos de existir.
E eu não queria ter os livros para mim, numa estante. Era só ler e deixar fluir. Na verdade eu queria viver naquele mundo, viver daquele mundo.
Em algum momento o mar da imaginação secou. Não conseguia mais ler. Escrever já não podia. Não queria. E agora, como é que se viveria?
Os olhos no espelho me disseram que eu sou livre, que tudo foi, é e ainda pode ser ilusão. Tudo o que eu tenho que fazer é saber distinguir. Identificar.
Ainda é cedo. Ainda é breve.
E eu vou devagarinho reaprendendo a viver.
Como se fosse a primeira vez para todas as coisas, falar, andar, beber água, engolir e respirar.
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