sábado, 5 de julho de 2014

A última dança

Ele sorriu e lançou aquele olhar que ela conhecia bem, que alvoroçava nela a vontade de abrir mão de tudo para estar ao seu lado.
_ Quando eu te vejo de novo?
_ Não sei... Nossos caminhos agora são para direções diferentes. Mas, eu sei de algum modo, um dia a gente se reencontra.
Ele olhava o vento soprando seus cabelos, como alguém que acaricia algo macio e desejado.
Se abraçaram forte e ela partiu no último ónibus da noite.
Ele voltou para casa, chutando pedra e pensando em caminhos, evolução espiritual, amor, ligação de almas e pensamentos que se adivinham, se comunicam, em signos, morte e vida.
Deitou na cama sem tirar sapatos ou casaco.
No escuro ele evocava a eternidade do momento que vivera.
Suas mãos na cintura dela, a respiração dela em seu pescoço.
Passos devagar acompanhavam a música escolhida.
Aromas, sabores, temperaturas.
Era a língua dela, os seios dela, o sexo dele, o suor dos dois. O olhar eternizador.
Eram todos os sentidos dele nela. Ele era ela, e ela era ele.
Dormira em seu seio nu e quente, apaziguado. Se pudesse escolher, sempre dormiria daquele jeito. Viveria todas as coisas do dia inteiro e voltaria para casa, a veria ali, com seu sorriso de mistérios e a sensação que ela fazia brotar nele de satisfação. Era a paz.
E o seu travesseiro tinha o cheiro dela.
E ouvia sua voz engraçada dizendo que tinha uma história para resolver
antes de encontrar o amor nessas configurações. Ele não entendia, mas sabia,
cada pessoa tem seu sonho, suas coisas para conquistar. Umas encontram com quem compartilhar no percurso, outras encontram ao encontrar a si mesmas.
As músicas no seu fusca antigo lembravam as coisas dela
Os filmes recordavam a sua dança, aquela última dança.
Ele achava graça: Por que você sempre quer dançar, sapatinhos vermelhos?
Ela pendia a cabeça para traz e na volta lhe beijava na boca.
Nunca havia pensado em envelhecer até dançar com ela, naquelas pequenas noites. O que mais o surpreendia era jamais ter acreditado antes que conseguiria envelhecer com alguém.
Por que será que pensava tanto nisso agora?
Às vezes se pegava dançando sozinho, e acreditava sentir a presença dela.
E toda noite era a última dança. A eterna. A única.



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