sábado, 16 de novembro de 2013

Data marcada

Dizem certas lendas que no momento do nascimento a pessoa já nasce com a sua história escrita, contendo nuanças e possibilidades de caminhada, mas a hora da sua morte sempre é certa. Exata. Não se engana Ikù, apenas passa-se a caminhar com ele, para na hora mesmo da partida, nada ser tão violento.
Sempre tive a sensação de que morreria jovem, cedo.
Cedo como? Se existo como se tivesse vivido mil vidas?
Vendo tantas coisas repetidas?
Tive tantos sonhos, e ainda os tenho, mas são como o vento... suaves demais para serem concretos nessa realidade bruta.
"Quem sonha demais não vive"... Um dia eu ouvi.
O contrário funciona? Sonhar é coisa de quem permanece inerte na realidade
e passeia num mundo ilusório?
Quanta chateação nos incontáveis rótulos rotuláveis por mentes etiquetadas.
Deixa-me morrer em paz.
Pisar na grama, cheirar margaridas amarelas, sonhar com a luz do sol nos jardins que nunca terei.
Mergulhar de manhã até o anoitecer e ouvir os sussurros de Yemanjá, vindo das ondas do mar.
Ah, o mar... Eu queria ser peixe, pedra, onda, areia para o mar vir me beijar.
Queria ser vento, fogo, luz... Trovão, chuva que molha o rosto do menino sufocado, que beija a língua da boca aberta da menina que busca liberdade.
Elementos.
Ser bruxa. Irregular. Incorrigível.
Mãe, me deixa morrer em paz. Eu não sei viver. Não sei viver essa vida que me deram, não compreendo este mundo, apesar de ler os sentimentos no olhar de cada um. Denso. E isso me pesa por demais.
Deixa eu caminhar em paz, mergulhar na minha piscina de plástico, pintar meus quadros, agonizar em meus sonhos enquanto tenho tempo nesta terra.
Outra me aguarda. A amedrontadora. A enganada. Assombrada. Mistoriosa.
Quero amêndoas doce e livros.
E a chuva agridoce que cairá do céu e se misturará as lágrimas de incompreensão para quem não compreendeu o que é existir.

Uma das melhores coisas da existência é beijar a boca de quem se gosta. Sétimo céu. Orùn. Dádiva dos Deuses e Deusas. Fonte de vida.

Se eu te beijo antes de partir, deixo um tanto da minha vida contigo, assim tu serás mais feliz assim. Não sinta o gosto da morte. Sinta do infinito.

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