"Anda! Diz que tá doendo. Te corroendo. Diz que tá te matando!
Se preservar tanto para quê?
Diz que não aguenta mais essa vontade de virar mar, de tanto querer chorar, e se desmanchar
e sumir, feito Yemanjá e a sua única saída para a liberdade e o retorno aos braços do seu protetor.
Abre bem os olhos e se olha por dentro.
Tá tudo quebrado, aos pedaços e você se fazendo de difícil.
Esquece aquela dor e quem a causou. Nada te vale procurar descobrir que sabor a vingança tem.
Justiça é diferente de vingança? E se a vingança for a justiça sendo feita?
E para quê pensar nisso tudo quando você não consegue dar um passo sozinha sem sentir dor?
Sem sentir que vai desmoronar, desabar, desabrochar em loucura?
Para que pensar no que os outros seres pensarão? A maioria não pensa nada.
E aqueles que pensam entenderão a pedra no meio do caminho, o diabo no meio do redemoinho,
a sua ausência nos ambientes, o silêncio cheio de vozes carcomidas pela hipocrisia e pelo tempo.
Diz.
Você não pode suportar mais um dia guardando tudo isso.
Só hoje! Você repete.
Mas é um hoje que está durando muito tempo.
Eternamente hoje."
Ela senta no chão com uma lembrança entre as mãos. Já foram janeiros demais.
"Os risos de janeiro
Sempre esquecem os soluços
Dos meses, dos outros anos;
Em que não se chovia mais
As horas de cócegas nem drops.
O sol que nascia mais quente
E que estalava do lado de fora
Anunciava: “Reviva menina!”
Então, olhei o charco das meias
Não com a tristeza habitual, pois
Eu mesma estava toda encharcada.
Incrível! Chovia-me em plena primavera."
Sempre esquecem os soluços
Dos meses, dos outros anos;
Em que não se chovia mais
As horas de cócegas nem drops.
O sol que nascia mais quente
E que estalava do lado de fora
Anunciava: “Reviva menina!”
Então, olhei o charco das meias
Não com a tristeza habitual, pois
Eu mesma estava toda encharcada.
Incrível! Chovia-me em plena primavera."

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