sexta-feira, 1 de março de 2013

Ao Som

Olhos enormes de curiosidade.
Descobriu que a falta de ar era a impossibilidade de sonhar.
Tantas limitações do sobrenatural... Idas e vindas, já não sabia o que fazer, como fazer,
com quem abrir o coração, para quem cruzar os braços, esconder o riso.
Se desfez mais uma vez do desejo, alimentado a pão de ló pela memória, com azeite, mel
e incenso de sândalo, que era para a realidade surgir perfumada e saborosa.
Acreditar e ter esperanças, ou esquecer e seguir sozinha?
Ela sabia. Sua vida era uma música. Ao som dos tambores seu ser exaurido se contorcia e renovava,
vinha das profundezas do seu universo, uma força maior, força dos elementos, manifestando água, céu, mar, cachoeira, terra firme, tempestade e mistérios nos seus braços firmes e seus pés leves.
Seus instrumentos musicais haviam quebrado, sido vendidos, apenas lhe restou uma tarka boliviana,
presente usurpado de um descendente de tupã, vindo de outras terras, perdido dentro de si mesmo.
Então ela decidiu que seria como Orfeu, faria os mortos dançarem ao som da sua dor.
Na esperança de que seus sonhos voltassem para ela, se realizassem, assim como Orfeu buscava a volta de Eurídice, assim como buscava esquecer a sua dor por ela não poder mais voltar.


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