O amor? O amor é um encontro.
Ele tinha o olhar doce. Doce do doce dengoso da vida,
do sonho manso de pisar em terras mais dignas, com dores menores.
Tinha os braços enormes, queria abraçar a vida de uma só vez.
Poderia não viver muito, ou alimentar o velho costume de ter o que contar,
dizer que viveu.
Acreditava ser impossível viver sem estar apaixonado. Mas a sua paixão se confundia na busca por si mesmo.
Nos meus sonhos, eu imaginava que a pessoa que iria me despertar
para o amor seria àquela, a única, no meio de milhões, a inconfundível.
Sua aura, sua alma, seu clima, clímax no olhar, no pisar macio, sorriso
que pediria para abrir portas e janelas.
Eu o conheci, provei do seu sentimento, da sua dor, me sensibilizei com sua
fragilidade, me revolucionei aprendendo a amar o que não era eu, não era meu.
Universos opostos, entrelaçados pela vontade de conhecer, se reconhecer,
se sentir à vontade com a novidade e saborear, porque o que te intriga é o que pode te fazer sorrir, te fazer mudar e aprender.
O amor nasce da mistura.
E as misturas renovam-se a cada novo movimento.
No jardim de tulipas, margaridas, rosas, chorões dengosos, orquidéas, cerejeiras, crisântemos, calandivas,... formas, cores, tamanhos, aromas feiticeiros, no meio de tantas flores, eu reconheci um cravo.
Único.
Entre milhões, o seu cheiro, o seu corpo, tudo que o compunha era inconfundível. Mesmo que ele se confundisse com as terras do mundo, com as flores do mundo, com o orvalho, danado, orvalhando fora de hora.
Talvez a diferença fosse só para mim, mais ninguém.
Encontro poucas palavras para te dizer, amor imenso, que nasceu em mim,
aprofundando suas raízes, me fazendo sofrer por entender tortamente que o meu querer e responsabilidade era te fazer forte quando eu pensava que a minha terra infértil não podia te fazer cravo de liberdade.
Hoje sei que sou terra fértil, só não sabia chover. Jardim escondido Era por isso.
Ao meu cravo inconfundível, deixo a lembrança do nosso olhar, do amor em cada gota, cada substância com que te nutria, me nutria.
Cada movimento da terra que nos fez crescer.
Fez das nossas vidas misturadas, a pintura mais sublime.

2 comentários:
Parece que o amor com sua indumentária se multifaceta e se converge em palavras nesse desabafo lírico... "O amor nasce da mistura" - Com tanta sensibilidade me recordo de Pablo Neruda e os cem sonetos de amor. E assim nesse vai e vem de desilusões fagocitados por palavras líricas... Eu tb me vou, riu, falo sozinho, olho miudamente a cada palavra, me vejo em epifania. Ah.. o amor!!!
...É que tem, aqui mesmo, uma frase me dizendo sempre que "já passou da hora". O cravo, em especial este, deixou de ser flor, de produzir flor. Nem acho bom quando a ideia de uma beleza se revela, posteriormente, não tão bela assim. Minha Preta, eis que surge o momento. Há tanta vida aqui dentro de nós!! Te amo <3
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