terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ceia

"Chega perto, devagar.
Sente o cheiro da pele, a temperatura do corpo.
Sente a vida exalando, o desejo abraçando cada pensamento.
Beija. Devagar. Sente o lábio, a língua, o gosto.
Aperta contra o corpo o outro corpo desejado, de leve, com firmeza.
Deixa as mãos invadirem, devagar, o vestido, entre as pernas.
Passeia de manso pelo lóbulo do seio, o bico, os sabores.
Acaricia o sexo, ainda de leve, reconhece-o, calor e textura.
Os teus sentidos é o teu rei, tua lei.
Entrega a tua consciência de bandeja para o banquete do amor.
Ela? Uma miragem nos teus braços.
Tu? És a ultima ceia na peregrinação interior devastada pela paixão.
Ilusão.
O coração vacila.
Mas tu sabes que é o fim.
Aperta-a contra ti, descansa a tua dor e confusão no peito macio,
no cheiro quente e doce do corpo dela.
Ela vai te esquecer. Esquecer é a morte que te apavora.
Na tua confusão tu te calas, túmulo de tormento.
Teu coração pequeno só queria a diferença."
(...)

A última ceia é o gosto da tua boca, do teu corpo,
o meu último toque na tua pele, no teu sexo.
Toque temeroso. Paladar vacilante pela incerteza da realidade.
O amor é muito mais.
Eu queria te dizer, agora eu quero experimentar amar sem manual.
Experimentar a vida, conhecer a vida, aprender a vida.
Viver o que não está escrito nos livros,
ou nos ensinamentos sociais que aprendemos ao longo dos anos.
Desapeguei das noções sobre como devem ser o amor e os amantes.
Jogos de amor. Não quero jogar.
Não respeitarei regras. Fui expulsa antes dos acordos
Um desejo ali. Um envolvimento lá. Superficialidades não me atraem.
A vida que eu escolhi é feita de mergulhos.
Hoje, só por hoje, meu estado é o teu corpo negro, esguio, luminoso.
O cós da tua calça, as tuas cochas,
teu pé, teus cabelos, teu pescoço.
E na tua boca a minha morada eterna.
Da eternidade até o amanhecer."

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