"Tinha os cabelos cacheados.
Tenho a impressão de que mulheres com cabelos cacheados são mais leves, livres. Se desprenderam de um julgo imagético.
Tem um mistério de maciez, de perfume, atrás do pescoço, nas orelhas; de brilho, nos anéis do cabelo, no olhar quando sorri ou quando está em dúvida.
Nem fechar os olhos para evocar a lembrança do frescor da sua pele, preciso.
Sua temperatura, o som da sua voz, a leveza do seu desejo.
Eu senti a sua vida inteira num beijo que me acordou de sonos antigos, de pesadelos sem gosto.
Seu quarto tinha cheiro de incenso. Mandala na porta.
Ela tem um santo que roda na sua cabeça, força do universo, a quem dedica
um respeito e um afeto que eu não sabia que poderiam existir.
Falava séria da voz do vento e dos olhos das estrelas.
Eu, materialista utópico, entendia a complexidade do pensamento humano e a imensidão que eu desconhecia.
Amolecia inteiro com o riso dela. Dedos acariciando os lábios, rosto corado, atmosfera de eternidade, sensação de estar experimentando coisas que valem a pena. E a noção de que eu estava vivo e no centro da minha própria vida."
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