segunda-feira, 9 de maio de 2011

sEla vaziA

Dom Quixote sente a falta de Sancho Pança.
Você se foi muito cedo, meu companheiro, guardião das minhas ilusões.
O trabalho não havia chegado ao fim.
Os dragões ainda estão aqui.
E Dom Quixote fica imaginando se ter oferecido a sua morte
em troca dessa vida amarga, onde tudo aperta, coração de cajú, valeu de alguma coisa.
E vou seguindo com a minha espada de pau e meu cavalo imaginário,
procurando abater as bestas que me rodeiam.
Foi preciso vinte anos para recuperar o pai.
O espírito não tem suportado mais um momento
para recuperar a si mesmo.
Não tem papéis coloridos cortados caindo da janela,
não tem flores no quintal.
Apenas sardões e escorpiões debaixo da cadeira.
Talvez, Sancho, a espada esteja apontada para a direção errada.
Os dragões que Dom Quixote precisa fazer sucumbir parecem estar dentro do peito.
Cavalgando debaixo do céu de sol e chuva, buscando àquelas estrelas que prometiam
aparecer tanto de noite como durante o dia, devaneio de quem quer esquecer
a lembrança dos moinhos sem vento e sem água.
As estações passam envelhecendo o olhar, elas passam
perfumando e ensinando como é morrer, congelar e derreter, secar e fazer nascer.
De todas as mortes, Sancho Pança, a que te levou para longe do seu
cavaleiro sonhador foi a mais devastadora delas.
E o que sobrou foi essa espada de pau e as alucinações de
um Dom Quixote assombrado que busca liberdade, justiça e respostas.

2 comentários:

Cristiano Casado disse...

Passei aqui, com uma sensação de descoberta e afinidade com a produção literária. Agora tenho certeza disso. Parabéns!

Patrícia disse...

Que belíssimo texto.Tenho certeza que seu dog sente orgulho de você, aliás, eu aprecio o seu amor por ele. Não é qualquer pessoa que consegue enxergar e descrever tão bem um cãozinho como uma pessoa, um amigo.

Obrigada pelo comentário no meu blog. Beijos