terça-feira, 24 de maio de 2011

Composição

Ela se acostumou a ser triste que qualquer alegria apavora.
As lágrimas eram seu adereço principal. Doces, amargas, salgadas
temperadas com as lembranças dos sonhos partidos ao meio,
sem fita adesiva para pregar os pedaços.
Naquela tarde reconheceu a sua história nos olhos que insinuavam
muito mais do que a boca e a voz doce da amizade diziam.
No exato momento o universo mudou seu curso, e dentro dela se rompeu
as cordas grossas da dor.
A vida era uma corda bamba  e ela aprendia o ritmo de caminhar.
A última vez que se lembrava de ter se sentido tão leve, deslizando
entre carros, buzinas, voz alta e sinal vermelho foi naquele São João
onde o amor prometia que voltaria.
Mas e o amor, aonde foi o amor que ela buscava feito bola de sabão no
quintal molhado de roupa lavada, de molho, encardida, ensopada?
Antes ela era se era o amor. Já não sabia existir sem aquela parte, que ainda
alienada de si, a fazia e refazia em saudade e consumição.
Como num estalo, gesto que levou anos para ser composto, realizado... Aceitou que o amor não voltaria.
E passou a ser ela nela. Suas músicas, seus livros, gostos,  individualidades, seu universo
tão igual ao da maioria, seus unhas curtinhas, seu dedo que não conseguia colocar as notas no violão
sempre afinado, enfeitado, esperando àquela música.
Se redescobria não tendo que ser sensual para chamar a atenção de ninguém,
sem ter que se preocupar se vai agradar, se seu cabelo ondulado
não vai ser engolido pelos estereótipos de como ser, mar sem ondas numa praia onde ninguém fica.
Ou ser do tamanho exato para a vida de alguém. Encaixe.
Solta ela tinha a forma que queria.
Um dia... pincel que pintasse com suas cores,
cores para contrastar, cores para atenuar, cores e cores para o que fosse.
E não mais para apagar.
Nem mão para abafar a sua música. Seria composição com dois violões.
(...)
Porque aquilo era o que mais doía, a falta.
O não saber ser sem àquela realidade em que foi feliz um dia.

Nenhum comentário: