quinta-feira, 21 de abril de 2011

Caminho sem volta ou Encontro desencontrado

Eram quase sete horas da noite e eu me preparava para atravessar a rua, com o coração vazio e os olhos pesados por ter deixado para depois sentar naquele banco e pensar sobre como anda a vida.
De repente eu olhei. Anos luz. Tanto tempo. Era aquele jeito de andar. Aqueles cabelos loiros, aquelas costas.
Eu o reconheceria em qualquer tempo, em qualquer lugar.
E ele estava de mãos dadas com um moça de cabelo amarrado, que o puxava pela mão com pressa.
E a vida toda veio me visitar em pensamento.
Eu sorri pesado, mas também quis chorar.
Bolsa e óculos sobre o sofá.
Um momento tão único. Vários singulares durante os dias.
Eu tive muitos encontros amorosos. Encontros perfeitos. 
Amores da vida no tempo em que estiveram no lugar para o amor.
Eu tive o sonho. O encanto, fogueiras acesas e noites chuvosas. A expansão e suas explosões solares
O encontro que me acordou para o sonho, para a paixão e para a dor da impossibilidade.
O amor que chegou devagar e plantou tudo quanto é flor e perfume.
O sufoco de querer um amor absurdo. Mas não foi amor, era fuga.
E eu fico aqui parada nesse banco, nessa chuva. 
E cosmicamente divido substâncias de mim com o inanimado acordado ao meu redor.
Sinto que passo pelas vidas para chover, ajudar a brotar a viver, virar jardim e depois eu parto.
Parto de violência, para viver outra vida, florescer em outro lugar, pintar muros cinzas,
abrir mão daquilo que não posso modificar com a minha palavra borrada,
meu desejo envenenado de tudo o mais.
Eu quero mais do que tudo que já vi. 
Eu sinto muita saudade, mas eu vou indo embora.
Já estou muito cansada para explicar para esses teus olhos de abismo, teu perfume de aconchego, como a vida acontece.
Eu pensei que eu poderia ser a sua namorada... e as respostas vieram com a chuva, com o banco vazio,
com os cabelos loiros, os olhos pequenos e andar macio, com o beijo que oferecia o encanto e a promessa do devagar, com a promessa do para sempre...
Mas eu não pude ser e era eu.
Passei pela passagem onde estava escrito: caminho sem volta.
E tenho buscado a vida em outro nível, começar a perceber o que a gente desperdiça nessa
vida corrida desses nossos dias.
Eu estou deixando muita coisa para dizer depois.
Para viver, vou vivendo devagarinho agora mesmo, respeitando quem eu sou
e quem os outros e as outras são.
Procurando meus instrumentos de resistência e ruptura para a luta, a morte e o amor de todos os dias

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