quinta-feira, 3 de março de 2011

Hora da despedida

Fazia calor.
E o tempo amolecia os sonhos, as novas decisões.
Ela queria acordar de vez.
Queria uma noite fresca, usar o seu vestido verde mar,
tomar uisque, ouvir Maria Bethânia, amar novamente.
No seu quarto recém pintado, paredes vermelhas, nuanças
da vontade.
Janelas abertas para a noite entrar.
Pensava: Que vida piadista poderia ser aquela,
em todas as suas mortes só aquela paixão que não se esvaíra.
Resistente, era  o único perfume que sempre se renovava.
Como poderia agora, depois de tantas mudanças,
renascer amor?
O amor já tinha um amor.
Como poderia desejar, querer, sonhar com alguém que dividia os seus
momentos com outra pessoa.
Os beijos, abraços, sorrisos e lágrimas, as palavras... reservados para outro universo.
Era o mar que se insinuava diante dela.
Ao que daria voz ou vez? Ao receio ou a vontade.
Apesar dos conceitos históricos e as cicatrizes,
abriu o seu coração para o amor ocupado.
Rasgou os limites. Dignidade era assumir sinceramente que amava e sentia falta e
queria de volta.
Mesmo que nada adiantasse.
Mesmo que um fio de cabelo não saísse do lugar.
Embora desejasse que um tufão passasse e revirasse a realidade.
Ela também era despertada em momentos pequenos pelo receio
da possível repetição.
Dona da sua vida, decidiu. As horas, os intervalos e a parte em que estava fora do ar,
tudo ela, dela.
Seria a hora de desvencilhar-se?

Nada.
Nada mesmo fazia com que ela se sentisse à vontade.
Ia mudar de rumo, fosse o que fosse.

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